Leia a coluna da semana (11/05/2026):
Já te pegou no colo hoje?
Por Juliana Ramiro
Tem uma frase que recorrentemente acabo dizendo entre um atendimento e outro. E a frequência com que ela aparece não é coincidência. Ela revela um dos grandes desequilíbrios emocionais do nosso tempo: a dificuldade que temos de construir uma relação pacífica conosco.
Eu digo: agora é tu que tens que te pegar no colo.
Parece simples. Mas não é.
Fomos ensinados, desde muito cedo, a olhar para o outro. Muitas famílias repetem uma frase quase como mandamento moral: “faz para o outro aquilo que tu gostarias que fizessem para ti”. A intenção é bonita. Ensinar empatia é fundamental. O problema é que, no caminho, muita gente aprendeu apenas metade da lição.
Aprendeu a cuidar. Mas não aprendeu a cuidar de si. Aprendeu a oferecer colo. Mas não a reconhecer quando também precisa dele.
E assim, aos poucos, o amor vira uma espécie de moeda de troca silenciosa: eu faço pelo outro esperando, em algum momento, receber de volta aquilo que nunca consegui me dar. O cuidado vira expectativa. A entrega vira cobrança não dita. E o sofrimento aparece quando o retorno não vem.
Na clínica, isso aparece o tempo inteiro. Pessoas exaustas de sustentar tudo, todos e o tempo inteiro. Mulheres, principalmente, atravessadas pela ideia de que amar é se abandonar. Como se cuidar de si fosse egoísmo. Como se priorizar a própria dor fosse um excesso. Como se ser “boa” significasse estar sempre disponível.
Mas existe uma pergunta importante que quase nunca fazemos: se eu desejo tanto acolhimento, por que eu mesma não me acolho? Se eu sou adulta, por que ainda espero que alguém venha fazer por mim aquilo que já posso começar a construir dentro de mim?
A psicanálise nos ajuda a entender que a forma como fomos cuidados atravessa profundamente a maneira como aprendemos (ou não) a cuidar de nós mesmos. Quando o psicanalista Donald Winnicott fala da “mãe suficientemente boa”, ele não está falando de perfeição. Está falando de presença, de sustentação emocional, de alguém que oferece continência para que uma criança exista no mundo sem precisar se defender o tempo inteiro.
Mas talvez a maturidade emocional esteja justamente no momento em que entendemos que precisamos desenvolver, dentro de nós, essa função cuidadora. Não para substituir o amor do outro. Mas para não depender exclusivamente dele para sobreviver emocionalmente.
Se eu quero descanso, talvez eu precise começar a me permitir parar. Se eu quero carinho, talvez eu precise parar de me tratar com tanta dureza. Se eu quero compreensão, talvez eu precise ouvir minha própria dor sem minimizá-la. Isso não é egoísmo. Isso é responsabilidade afetiva consigo mesmo.
Na segunda-feira, um dia depois que comemoramos o Dia das Mães, a reflexão que proponho não é sobre a maternidade dirigida aos filhos, aos outros mas sobre a maternagem que exercemos (ou não) para nós mesmos. Quem cuida de quem cuida? Quem acolhe aquela pessoa que sustenta tudo de todo mundo o tempo inteiro?
Talvez crescer emocionalmente seja, em alguma medida, aprender a se pegar no colo sem culpa. Porque existe um cansaço que nenhum reconhecimento externo resolve: o de abandonar a si mesmo todos os dias. E talvez esteja na hora de interromper esse ciclo.
Já te pegou no colo hoje?
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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/
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