PODCASTO silêncio dos homens: quando o estranho se torna regra

Leia a coluna da semana (04/05/2026):

O silêncio dos homens: quando o estranho se torna regra

Por Juliana Ramiro

Há algo que se repete, quase como um roteiro já conhecido, toda vez que um caso de violência contra mulheres e crianças vem à tona. Não importa o cenário: um apartamento no Rio de Janeiro, um espaço esportivo, uma academia. O enredo muda de superfície, mas o fundo permanece o mesmo. O que se escuta não é apenas o relato da violência, mas, sobretudo, o silêncio, ou pior, a cautela cúmplice de muitos homens.

No recente caso envolvendo o treinador de jiu-jitsu Melqui Galvão, o que mais chamou atenção não foi apenas as denúncias em si, mas a reação ao redor delas. Antes mesmo de qualquer escuta sensível, surgem frases conhecidas: “é preciso ter provas”, “pode ser um mal-entendido”, “vamos esperar os dois lados”. Em paralelo, quando há uma retratação ou pedido de desculpas, este é acolhido com uma rapidez impressionante, como se bastasse para encerrar o assunto. Como se a palavra “desculpa” tivesse o poder mágico de apagar a violência.

Essa dinâmica não é nova. Ela revela algo mais profundo, que a psicanálise ajuda a nomear. Sigmund Freud, ao falar sobre o conceito do “estranho” (das Unheimliche), nos mostra que aquilo que mais causa inquietação não é o desconhecido absoluto, mas o que nos é familiar e, ao mesmo tempo, perturbador. O estranho é aquilo que reconhecemos, mas preferimos não ver.

E o que há de mais familiar do que o machismo?

O incômodo que esses casos geram não vem apenas da violência em si, mas do fato de que ela expõe algo estrutural. Algo que muitos homens reconhecem em si mesmos, nos seus grupos, nas suas permissividades, mas que preferem manter no campo do não-dito. Por isso o silêncio. Por isso a cautela seletiva. Por isso a pressa em relativizar.

No caso do abuso coletivo no Rio de Janeiro, a lógica se repete com precisão assustadora. A pergunta nunca é “o que aconteceu com ela?”, mas “o que ela estava fazendo lá?”. Por que aceitou o convite? O que esperava? Como se, em algum nível, a violência fosse uma consequência lógica de uma escolha feminina. Como se o desejo ou a liberdade de uma mulher fosse um risco que ela deveria calcular e, ao falhar nesse cálculo, se tornasse responsável pelo que sofre.

É sempre a vítima que precisa se explicar.

Essa inversão revela uma engrenagem cultural bem ajustada. O machismo não opera apenas na violência explícita, mas também, e talvez principalmente, naquilo que a sustenta: a dúvida direcionada, a empatia seletiva, a proteção dos pares. Há uma espécie de pacto silencioso que se ativa nesses momentos. Um pacto que não precisa ser declarado, porque já está internalizado.

No universo do jiu-jitsu essa questão ganha contornos ainda mais complexos. Trata-se de uma prática marcada por hierarquias rígidas, disciplina, respeito quase militar às autoridades. Mestres são figuras de poder incontestável. E, como em qualquer estrutura assim, o risco de abuso não está apenas no ato em si, mas na dificuldade de questioná-lo. Quando o poder se concentra e se naturaliza, o outro, geralmente mais jovem, mais vulnerável, ou mulher, torna-se mais facilmente subjugado.

E o mais inquietante: isso costuma acontecer diante de muitos. Mas poucos falam.

O silêncio dos homens não é neutro. Ele não é prudência. Ele é posição. Quando se escolhe não nomear a violência, quando se opta por proteger a reputação em vez de escutar a dor, quando se relativiza o inaceitável, está-se participando ativamente da manutenção desse sistema.

Romper esse silêncio exige mais do que “esperar provas”. Exige disposição para reconhecer o que há de estranho, e profundamente familiar, nessas situações. Exige suportar o desconforto de perceber que o problema não está apenas no outro, no “monstro isolado”, mas em uma cultura que o sustenta.

E talvez seja justamente aí que mora a possibilidade de mudança: quando o estranho deixa de ser negado e passa a ser reconhecido como parte de uma estrutura que precisa, urgentemente, ser transformada.

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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/

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