Leia a coluna da semana (06/04/2026):
Entre o inevitável e o possível: o risco de não viver
Por Juliana Ramiro
Na última sexta-feira, aqui no litoral, fomos atravessados por uma notícia dura: um acidente aéreo em Capão da Canoa, com quatro vítimas. Diante de acontecimentos assim, algo em nós silencia. A rotina perde o ritmo, os planos parecem frágeis, e a vida (essa que insistimos em acreditar que está sob controle) se revela, mais uma vez, imprevisível.
A morte, talvez, seja um dos maiores desafios da condição humana. Não porque ela seja rara, mas justamente porque é certa, e, ainda assim, impossível de ser totalmente simbolizada. Não temos controle sobre quando, como ou por quê. E isso nos angustia. A psicanálise nos ensina que o humano não lida bem com o que escapa ao seu domínio. Tentamos prever, evitar, organizar… mas a finitude insiste em nos lembrar do limite.
Paradoxalmente, é diante dessa impossibilidade de controle que muitos acabam abrindo mão de viver. Com medo da perda, do erro, do fim, escolhem uma vida mais contida, mais segura, mais “protegida”. Evitam riscos, desejos, movimentos. E, sem perceber, passam a existir de um modo esvaziado, como se fosse possível escapar da morte vivendo menos.
Mas há um ponto importante aqui: podemos morrer mesmo estando vivos.
Quando abrimos mão do desejo, quando deixamos de buscar, de tentar, de nos implicar com aquilo que nos move, algo em nós se apaga. E o desejo, como nos aponta a psicanálise, não é um detalhe, ele é estruturante. Somos seres de falta, e é justamente essa falta que nos coloca em movimento. Desejar é o que nos faz vivos.
Claro, desejar também implica frustração. Nem sempre teremos o que queremos. Nem sempre seremos quem imaginamos. E isso dói. Mas há uma diferença enorme entre lidar com a dor de não alcançar algo e desistir de desejar para não sofrer. No primeiro caso, estamos vivos, implicados, em movimento. No segundo, apenas existindo, protegidos, mas também paralisados.
Talvez o grande desafio não seja evitar a morte, mas sustentar a vida apesar dela. Sustentar o desejo mesmo sabendo que tudo é finito. Apostar no que nos move, mesmo sem garantias.
Porque, no fim, não é sobre controlar o tempo que temos, mas sobre o que fazemos com ele.
Entre o nascer e o morrer, existe um espaço. E é nesse “entre” que a vida acontece. É ali que cabem os encontros, os sonhos, as tentativas, os erros, os recomeços. É ali que podemos escolher não viver de um jeito morto.
Como escreveu Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.”
Que possamos, então, sustentar a grandeza de desejar, mesmo diante do inevitável. Porque a morte é um fato. Mas a vida… a vida é uma escolha cotidiana.
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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/
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