PODCAST6×1: Quando o trabalho ocupa tudo, o sujeito desaparece

Leia a coluna da semana (20/04/2026):

6×1: Quando o trabalho ocupa tudo, o sujeito desaparece

Por Juliana Ramiro

6×1: Quando o trabalho ocupa tudo, o sujeito desaparece

Há um discurso recorrente que insiste em naturalizar a escala 6×1 como se fosse apenas mais uma engrenagem inevitável da vida adulta. Trabalhar seis dias para descansar um soa, para muitos, como o preço a pagar pela sobrevivência ou, para alguns, pelo sonho de empreender em um país onde as dificuldades são reais e diárias. E são mesmo. Empreender no Brasil é desafiador, por vezes exaustivo. Mas é preciso dizer com clareza: não é o trabalhador, não são as famílias, e muito menos as crianças que devem pagar essa conta.

A conta tem sido paga, silenciosamente, com a saúde mental de quem sustenta esse sistema.

A psicanálise há muito nos lembra que o sujeito não se constitui apenas pelo que produz, mas pelas relações que estabelece. Somos feitos de encontros, de trocas simbólicas, de afetos. Quando o tempo de vida é quase integralmente capturado pelo trabalho, o que se perde não é apenas descanso físico, perde-se a possibilidade de existir para além da função. Perde-se o convívio, o brincar com os filhos, o olhar sem pressa, a construção de vínculos. E isso adoece.

Não é por acaso que vemos crescer quadros de ansiedade, depressão, esgotamento extremo. O sujeito pressionado, sem tempo para elaborar sua própria experiência, começa a viver em modo de sobrevivência. A vida se reduz ao cumprir tarefas. E quando o trabalho passa a ocupar o lugar central, e quase único, da existência, ele deixa de dignificar e passa a aprisionar.

Sim, o trabalho dignifica. Mas ele não sustenta sozinho o sentido de existir.

Vivemos sob uma lógica capitalista que insiste em nos convencer de que “ter” é mais importante do que “ser”. Trabalha-se mais para consumir mais, e consome-se mais para tentar preencher um vazio que, paradoxalmente, só aumenta. Nesse circuito, o sujeito vai sendo reduzido à sua capacidade produtiva. O valor de alguém passa a ser medido pelo que entrega e o que tem, e não pelo que é.

Mas o ser não se constrói no acúmulo, ele se constrói na relação.

É nesse ponto que precisamos ter cuidado com leituras simplistas ou perigosas sobre temas complexos. Por exemplo, quando se fala sobre o aumento de diagnósticos de autismo, é fundamental não atribuir isso a uma única causa ou, pior, responsabilizar diretamente as famílias ou a presença, ou ausência, dos pais. Todavia, ainda assim, há algo que merece ser pensado. O modo como vivemos impacta, sim, nossas formas de nos relacionar. E quando mães e pais passam a maior parte do tempo fora, exaustos, tentando dar conta de sobreviver, algo se fragiliza no campo do encontro. Não se trata de culpar indivíduos, mas de questionar um sistema que organiza a vida de forma a dificultar o vínculo.

E isso não aparece apenas no autismo. Aparece em diferentes formas de sofrimento psíquico. Porque todo adoecimento humano, em alguma medida, é também um adoecimento das relações, nas relações e pelas relações.

A escala 6×1, nesse cenário, não é apenas uma questão trabalhista. É uma questão de saúde pública, de futuro social, de humanidade. Reduzir a jornada, caminhar para modelos como o 5×2, não é “benefício”, é condição mínima para que a vida aconteça fora do trabalho.

Isso exige, sim, responsabilidade compartilhada. O mercado e o governo precisam pensar alternativas que não recaiam sempre sobre o corpo e a mente do trabalhador. Porque manter o modelo atual é escolher, conscientemente, um futuro adoecido.

E o futuro não é individual. Ele é coletivo. Se queremos uma sociedade mais saudável, mais humana, mais possível, precisamos devolver ao sujeito o tempo de ser, e de estar com o outro. Trabalhar é parte da vida. Mas não pode ser toda ela.

Te convido a refletir mais sobre este e outros temas acompanhando os episódios do Psi Por Aí, disponíveis no YouTube e no Spotify. E claro, siga também o Psi Por Aí nas redes sociais. Aceito sugestões de temas! Até a próxima semana.

Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/

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