Leia a coluna da semana (13/04/2026):
Quando os filhos tentam nos salvar: o peso invisível que não deveria ser deles
Por Juliana Ramiro
Há algo no nosso tempo que cansa e não é pouco. Estar bem, hoje, tem se tornado uma tarefa cada vez mais exigente. Entre cobranças, inseguranças, excesso de informação e a sensação constante de insuficiência, muitos adultos seguem vivendo no limite, tentando sustentar uma rotina enquanto, por dentro, algo vacila.
O médico psiquiatra Gabor Maté nos provoca justamente nesse ponto ao questionar o que chamamos de “normal”. Em um mundo adoecido, adaptar-se plenamente talvez não seja sinal de saúde, mas de silenciamento. E esse silenciamento, muitas vezes, acontece dentro de casa, onde os adultos seguem funcionando, mesmo quando emocionalmente esgotados.
O problema é que, mesmo quando não dizemos nada, as crianças percebem.
Elas não compreendem tudo, mas sentem muito. Captam o olhar vazio, o suspiro mais longo, o corpo presente e a mente distante. E, diante disso, algo profundamente humano acontece: elas tentam cuidar.
Tentam fazer rir, agradar, não dar trabalho. Tentam, à sua maneira, devolver vida àquilo que sentem estar se apagando. Mas há um ponto delicado (e necessário) de ser dito com clareza: crianças não podem sustentar emocionalmente os adultos.
Na psicanálise, autores como André Green já apontavam o impacto de uma presença emocionalmente ausente, o que ele chamou de “mãe morta”. Não se trata de ausência física, mas de uma indisponibilidade afetiva que, para a criança, pode ser vivida como um vazio difícil de simbolizar. Diante disso, muitas passam a ocupar um lugar que não lhes pertence: o de tentar reanimar o outro.
O psicanalista Wilfred Bion, ao falar da função continente, nos lembra que é o adulto quem deveria acolher e dar sentido às angústias da criança. Quando isso se inverte, algo se desorganiza. A criança, ainda sem recursos psíquicos suficientes, tenta conter aquilo que nem o adulto está conseguindo sustentar.
E isso pesa. Pesa muito.
Porque amar, para uma criança, é natural. Mas responsabilizar-se pelo bem-estar emocional de quem deveria protegê-la é um fardo silencioso e, muitas vezes, duradouro.
Talvez por isso a metáfora do avião seja tão potente. Em situações de emergência, a orientação é clara: coloque primeiro a sua própria máscara de oxigênio, só depois ajude quem está ao seu lado.
Não é egoísmo. É condição de possibilidade. Um adulto sem ar não consegue sustentar ninguém.
E, na vida psíquica, isso também é verdade. Cuidar de si, buscar ajuda, reconhecer limites, nomear o que dói… isso não é um luxo nem um ato individualista. É um compromisso com o vínculo. Porque, para que nossos filhos estejam bem, é fundamental que nós estejamos minimamente sustentados por dentro.
Isso não significa esconder a tristeza. Pelo contrário. Crianças não precisam de adultos perfeitos, mas de adultos verdadeiros, que possam dizer: “eu estou triste, mas estou cuidando disso”. Essa frase simples devolve à criança algo essencial: a segurança de que o mundo não desmoronou, mesmo quando balança.
Há uma diferença importante entre compartilhar a realidade e transferir o peso dela. O amor de um filho pode ser abraço, presença, tentativa de alegria. Mas não deve ser remédio. Não deve ser função.
Se esse texto te atravessa de alguma forma, talvez seja um convite: não para dar conta de tudo, mas para não dar conta sozinho. Porque há dores que precisam de espaço, de palavra e, muitas vezes, de ajuda.
E tudo bem que seja assim.
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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/
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