Leia a coluna da semana (27/04/2026):
Eu cuido do outro e quem cuida de mim?
Por Juliana Ramiro
Existe um ditado popular que atravessa gerações como se fosse uma verdade incontestável: “faça para o outro o que você gostaria que fosse feito para você”. À primeira vista, ele soa como um convite à empatia, à generosidade, à construção de vínculos mais humanos. Mas, no consultório, o que aparece com frequência é uma distorção silenciosa e, muitas vezes, sofrida desse ensinamento.
O que deveria ser uma ética do encontro com o outro se transforma, para muitas pessoas, especialmente mulheres, em uma renúncia de si. Ao invés de cuidar de si mesmas, passamos a vida tentando mostrar ao outro como gostaríamos de ser cuidadas. Como se amar fosse ensinar. Como se doar fosse garantir retorno. Como se o outro pudesse, ou devesse, adivinhar aquilo que nem nós mesmas temos conseguido sustentar.
Mas por que fazemos isso?
A psicanálise nos oferece uma pista importante. Sigmund Freud falava sobre a libido como uma energia psíquica única, que precisa ser distribuída entre diferentes campos da vida: trabalho, relações, projetos, filhos, família e, também, necessariamente, o cuidado de si. Não existe uma fonte infinita. Quando investimos demais no outro, inevitavelmente algo em nós fica desassistido.
E é justamente aí que mora o ponto cego de muitas histórias.
Quando uma pessoa entrega seu desejo, seu tempo e seu cuidado exclusivamente ao outro, ela não está apenas sendo generosa. Muitas vezes, está terceirizando a própria existência. Está, de forma inconsciente, apostando que o outro fará por ela aquilo que ela mesma não tem conseguido fazer: reconhecer suas necessidades, legitimar seus afetos, sustentar seu valor.
No caso das mulheres, essa dinâmica ganha contornos ainda mais intensos. Existe um recorte de gênero que não pode ser ignorado. Desde cedo, somos ensinadas, direta ou indiretamente, que nosso valor está no cuidado. Somos elogiadas quando nos dedicamos, culpabilizadas quando nos priorizamos, criticadas quando colocamos limites. E assim, vamos sendo treinadas para olhar sempre para fora, raramente para dentro.
O problema é que essa lógica cobra um preço alto. Porque o cuidado oferecido ao outro, quando não inclui a si mesma, não é sustentável. Ele adoece e esgota.
Tem uma cena que gosto muito pela sua simbologia e possibilidade de reflexão. Nos aviões, antes de cada decolagem, a orientação é clara: em caso de emergência, coloque primeiro a máscara de oxigênio em você, depois ajude quem está ao seu lado.
A ordem não é aleatória. Ela é vital. Sem ar, você não consegue cuidar de ninguém.
Na vida, parece que insistimos em inverter essa lógica. Tentamos salvar o outro enquanto nos falta oxigênio. Tentamos sustentar relações enquanto estamos à beira do colapso. Tentamos amar sem nos incluir nessa equação.
Mas não existe cuidado verdadeiro que exclua quem cuida. Não existe amor que sobreviva à ausência completa de si. E talvez seja hora de revisitar aquele velho ditado. Não para descartá-lo, mas para ampliá-lo: fazer pelo outro o que gostaríamos de receber também implica, antes de tudo, reconhecer que somos parte desse “outro”. Que merecemos o mesmo gesto, a mesma atenção, o mesmo cuidado que damos para ele.
Não existe príncipe encantado, super-herói, nenhum salvador que venha resgatar uma vida que foi abandonada por quem a habita. E, embora os vínculos sejam fundamentais, eles não substituem a responsabilidade que cada um tem consigo. Nem filhos, nem parceiros, nem família podem ou devem ocupar esse lugar.
O cuidado, antes de ser oferecido, precisa ser habitado. Cuidar de si não é egoísmo. É condição. É a partir daí que o encontro com o outro deixa de ser uma tentativa de reparação e passa a ser, de fato, uma escolha.
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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/
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