Leia a coluna da semana (30/03/2026):
Seja homem: o silêncio que começa na infância
Por Juliana Ramiro
No último domingo, na praia, em meio a um daqueles dias de calor que pedem pausa e presença, estava com minha família quando uma cena me atravessou. Alguns homens brincavam com seus filhos pequenos, jogando bola na areia. À primeira vista, parecia apenas um momento comum entre pais e filhos, mas bastaram alguns minutos de observação para que outra coisa se revelasse.
Os adultos ridicularizavam as crianças. Riam quando passavam a bola entre as pernas dos meninos, provocavam, tiravam sarro, estimulavam a raiva o tempo todo. Não havia ali um jogo que acolhe, ensina ou constrói vínculo. Havia disputa. Havia humilhação. Havia algo que, embora travestido de brincadeira, era outra coisa.
Que vínculo é esse que se constrói assim? Qual a necessidade de provocar, de diminuir, de tensionar uma relação que poderia ser, justamente, um espaço de segurança?
Em um dado momento, um dos meninos parecia à beira do choro. Exausto, caiu no chão. O adulto, possivelmente o pai, puxou sua orelha e disse: “Levanta. Não sabe brincar? Seja homem.”
É aí que tudo se revela.
Ser homem, na nossa sociedade, muitas vezes ainda está associado a suportar, competir, endurecer. Ser homem é não demonstrar fragilidade, é não chorar, é aguentar. É transformar o afeto em disputa, o vínculo em prova, o encontro em confronto. E isso não começa na vida adulta. Começa ali, na infância, nas pequenas cenas que ensinam, repetem e inscrevem.
Aquela “brincadeira” não era apenas uma interação isolada. Era uma transmissão. Um ensinamento silencioso e potente sobre o que é esperado de um menino. Sentiu frustração? Engole. Cansou? Levanta. Doeu? Não mostra. Ficou emocionado? Reprime. Porque, afinal, “homem não é assim”.
Na Psicanálise, entendemos que a forma como somos atravessados pelo outro marca profundamente a maneira como nos constituímos. É no laço, especialmente com as figuras parentais, que aprendemos não apenas a falar, mas também o que pode ou não pode ser sentido. Quando a violência, ainda que sutil, ainda que disfarçada de brincadeira, entra nesse laço, ela não só fere. Ela ensina.
E ensina, muitas vezes, que o afeto precisa ser silenciado.
A violência não é apenas o grito ou o gesto explícito. Ela também aparece na ironia constante, na humilhação naturalizada, na invalidação da experiência da criança. E, sobretudo, na exigência de que ela deixe de ser o que é para caber em um ideal rígido de masculinidade.
Fico pensando se as mães brincariam do mesmo jeito com esses filhos? E se esses pais brincariam assim com as filhas meninas? A resposta, muitas vezes, revela o quanto gênero ainda organiza o que é permitido sentir e viver.
O menino que quase chorou aprendeu, naquele momento, que seu corpo cansado não importa. Que seu limite não será respeitado. Que sua dor é motivo de correção, não de acolhimento. Aprendeu que, para pertencer, precisará se afastar de si.
E esse afastamento cobra seu preço.
Homens crescem, mas aquele menino permanece, muitas vezes, sem linguagem para o que sente. O que não pôde ser chorado vira irritação. O que não pôde ser acolhido vira silêncio. O que não pôde ser nomeado vira distância. E então nos perguntamos, anos depois, por que tantos homens não conseguem falar sobre si.
Talvez porque, um dia, quando tentaram, foram ensinados a parar.
Falar sobre masculinidade não é um ataque aos homens. É um convite à responsabilização e, principalmente, à transformação. Porque enquanto seguirmos ensinando meninos a endurecer, continuaremos formando homens que não sabem acessar, sustentar e compartilhar seus afetos, senão pela via da violência.
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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/
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