PODCASTEducar para não ferir: o feminismo começa na infância

Leia a coluna da semana (23/03/2026):

Educar para não ferir: o feminismo começa na infância

Por Juliana Ramiro

Há um ponto de partida que, muitas vezes, insistimos em ignorar: ninguém nasce odiando mulheres. A violência que hoje nos assombra, física, simbólica, psicológica, é aprendida, repetida e, sobretudo, autorizada em pequenos gestos cotidianos. É nesse cenário que o texto da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie surge (há algum tempo) não como um ideal distante, mas como uma urgência prática.

Chimamanda é uma escritora nigeriana contemporânea, reconhecida mundialmente por suas obras e por seu posicionamento firme em defesa da igualdade de gênero. Com uma linguagem acessível e direta, ela consegue traduzir temas complexos em reflexões profundamente necessárias para o nosso cotidiano, especialmente quando fala sobre a forma como educamos nossas crianças.

Em seu manifesto Para educar crianças feministas, ela nos oferece sugestões simples e, ao mesmo tempo, revolucionárias: ensinar meninas a ocuparem espaço e meninos a não se sentirem ameaçados por isso. Parece básico, mas não é. Ainda hoje, nossa cultura ensina meninas a agradar e meninos a dominar. E é nesse desencontro que a desigualdade se instala.

Se olharmos para os dados atuais, o retrato é duro. No Brasil, uma mulher é vítima de violência a cada poucos minutos. Casos de feminicídio seguem alarmantes, mesmo com avanços legislativos como a Lei Maria da Penha e políticas públicas de proteção. Campanhas, canais de denúncia e ações governamentais existem, mas ainda não são suficientes para conter a repetição desse ciclo. Parece que, mais uma vez, chegamos tarde.

E é aqui que a psicanálise nos ajuda a aprofundar o olhar. Desde cedo, a criança é atravessada por discursos sobre o que é ser menino e o que é ser menina. Essas marcas não são neutras: elas organizam a forma como o sujeito se percebe e como reconhece o outro. Quando ensinamos meninos a reprimir emoções e associar masculinidade ao poder, estamos também criando dificuldades no reconhecimento da alteridade. E o que não é simbolizado pode, muitas vezes, aparecer como violência.

Educar de forma feminista, portanto, não é apenas ensinar igualdade, é permitir que crianças cresçam com mais liberdade psíquica e menos rigidez nos papéis que ocupam. É autorizar meninas a desejarem sem culpa e meninos a sentirem sem vergonha. É romper com padrões que sustentam relações desiguais.

Esse movimento, hoje, quando começa, começa na escola. Mas deveria acontecer, principalmente, dentro de casa. Está nas pequenas falas, nas escolhas, nos exemplos. Cada gesto educa para o cuidado ou para a violência.

Se quisermos um futuro diferente, precisamos assumir essa responsabilidade no presente. A violência contra a mulher não começa no ato extremo, ela tem início muito antes, naquilo que naturalizamos desde a infância.

Fica aqui uma sugestão potente e necessária: a leitura de Para educar crianças feministas, de Chimamanda Ngozi Adichie. Um convite direto, sensível e transformador para quem deseja participar ativamente da construção de uma sociedade mais justa.

Te convido a refletir mais sobre este e outros temas acompanhando os episódios do Psi Por Aí, disponíveis no YouTube e no Spotify. E claro, siga também o Psi Por Aí nas redes sociais. Aceito sugestões de temas! Até a próxima semana.

Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/

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