Leia a coluna da semana (20/7/2026):
Ansiedade: quando o futuro invade o presente
Por Juliana Ramiro
Vivemos na era da velocidade. A tecnologia muda antes mesmo de aprendermos a usar a versão anterior. As notícias chegam em tempo real e, junto com elas, guerras, crises climáticas, novas doenças, descobertas científicas, instabilidades econômicas e mudanças constantes. O mundo parece estar sempre exigindo que estejamos preparados para o próximo desafio.
Mas será que somos feitos para viver nesse ritmo?
A ansiedade nunca foi tão comentada quanto nos dias de hoje. É comum ouvirmos alguém dizer: “Estou ansioso”, como se esse fosse o estado natural da vida moderna. Em parte, faz sentido. Afinal, a ansiedade é um mecanismo humano de proteção. Ela existe para nos preparar diante de uma ameaça, para nos colocar em estado de alerta quando algo importante precisa de nossa atenção.
O problema não é sentir ansiedade. O problema é quando ela deixa de ser um sinal e passa a comandar a vida.
Talvez possamos pensar que o oposto da ansiedade não seja a calma, mas a segurança. Quando nos sentimos seguros, conseguimos enfrentar os desafios sem sermos consumidos pelo medo do que pode acontecer. A segurança não elimina as dificuldades, mas nos permite confiar que teremos recursos para lidar com elas.
Na perspectiva psicanalítica, a ansiedade frequentemente revela algo que ainda não encontrou representação, algo que ameaça o equilíbrio interno e para o qual o sujeito ainda não construiu uma resposta. Não se trata apenas do que acontece fora de nós, mas da forma como vivemos essas experiências e dos recursos psíquicos que temos para enfrentá-las.
É por isso que, na clínica, quando um paciente chega dizendo que sofre de ansiedade, a pergunta não é apenas “o que está causando essa ansiedade?”, mas principalmente: “De onde vem essa sensação de insegurança?”. Quais são os medos? Quais experiências fragilizaram a confiança em si mesmo? O trabalho terapêutico passa por fortalecer o self, fortalecer o eu, para que a pessoa possa desenvolver maior capacidade de sustentar as incertezas inevitáveis da vida sem ser paralisada por elas.
Porque a ansiedade, quando excessiva, deixa de proteger. Ela paralisa. Rouba a capacidade de pensar, de decidir, de confiar. O futuro passa a ocupar tanto espaço que o presente praticamente desaparece.
Isso também acontece com as crianças.
É esperado que uma criança sinta ansiedade. Crescer é, por definição, entrar em contato com o novo. Uma nova escola, novos colegas, novas responsabilidades, novas descobertas. Há uma ansiedade saudável que acompanha o desenvolvimento e ajuda a criança a se adaptar ao mundo.
Mas quando encontramos uma criança excessivamente ansiosa, é importante olhar além dela. As crianças vivem mergulhadas no ambiente emocional da família. Elas captam preocupações, medos, tensões e inseguranças, mesmo quando ninguém fala sobre isso. Um ambiente constantemente preocupado com o futuro pode fazer com que a criança também viva como se algo ruim estivesse prestes a acontecer.
O psicanalista Donald Winnicott nos lembra que é o ambiente suficientemente bom que oferece à criança a experiência de segurança necessária para que ela desenvolva confiança em si mesma e no mundo. Quando essa base é fragilizada, a ansiedade pode ocupar um espaço maior do que deveria.
Talvez nunca tenhamos vivido tantas mudanças em tão pouco tempo. O mundo continuará acelerado, e provavelmente continuará produzindo novos motivos para nos preocuparmos. Não temos controle sobre isso.
O que podemos construir é uma relação diferente com a insegurança. Em vez de buscar um mundo sem riscos (algo impossível), podemos fortalecer nossos recursos internos, cultivar vínculos seguros, desenvolver nossa capacidade de tolerar as incertezas e reconhecer que nem tudo precisa ser resolvido hoje.
A ansiedade faz parte da condição humana. Ela nos alerta, nos protege e nos impulsiona. Mas ela não pode ser a única voz que conduz nossa vida. Quando encontramos segurança dentro de nós e nas relações que construímos, deixamos de viver apenas esperando o pior e passamos, enfim, a viver o presente.
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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/
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