PODCASTO que uma criança aprende quando apanha?

Leia a coluna da semana (13/7/2026):

O que uma criança aprende quando apanha?

Por Juliana Ramiro

Na última semana, Viamão (RS) foi palco de uma tragédia que ultrapassa qualquer debate religioso. Um bispo norte-americano é acusado de matar o próprio filho, de apenas três anos, após agredi-lo porque a criança não teria dado bom dia ao pai. A brutalidade do caso nos obriga a refletir sobre uma ideia que ainda encontra espaço em muitas famílias: a de que violência educa. E não educa.

Educação pelo medo não é educação. É violência. É tortura. E, quando dirigida a uma criança, torna-se ainda mais cruel porque atinge alguém completamente dependente dos adultos para sobreviver, aprender e se desenvolver.

Uma criança precisa sentir que está segura ao lado do pai e da mãe. É justamente essa segurança que permitirá que ela explore o mundo, erre, aprenda, desenvolva autonomia e construa sua personalidade. Quando o adulto transforma a casa em um lugar de medo, a criança deixa de aprender sobre limites para aprender sobre ameaça.

Muitas vezes ouvimos frases como “apanhei e sobrevivi” ou “foi para o meu bem”. Mas sobreviver não significa que aquilo tenha sido saudável. A violência não ensina respeito. Ensina medo. Não ensina diálogo. Ensina silêncio. Não ensina responsabilidade. Ensina submissão ou revolta.

Do ponto de vista da psicanálise, a função dos pais é ajudar a criança a construir recursos internos para lidar com seus impulsos, suas emoções e seus limites. Isso acontece pela palavra, pela presença, pela constância e pela capacidade do adulto de suportar as frustrações que fazem parte da infância. Afinal, crianças desafiam, esquecem, gritam, testam limites e, muitas vezes, simplesmente não correspondem às expectativas dos adultos. Isso não é desobediência moral. É desenvolvimento.

Quando um pai ou uma mãe agride uma criança porque ela não fez aquilo que esperavam, o que aparece não é uma estratégia educativa. O que aparece é o descontrole do adulto diante da própria frustração. A violência fala muito mais sobre quem bate do que sobre quem apanha.

E há um aspecto que merece atenção especial: nossa sociedade ainda educa muitos meninos para a violência. Desde cedo, aprendem que “homem não chora”, que demonstrar medo é sinal de fraqueza e que falar sobre sentimentos é coisa de quem não é forte. Aos poucos, vão sendo afastados da própria vida emocional.

A psicanálise nos mostra que aquilo que não pode ser simbolizado tende a encontrar outra forma de expressão. Quando um homem não aprende a reconhecer, nomear e elaborar suas emoções, elas não desaparecem. Frustração, vergonha, impotência e raiva continuam existindo, mas podem acabar sendo descarregadas no corpo do outro.

Isso, evidentemente, não justifica nenhuma violência. Mas ajuda a compreender por que tantos homens recorrem ao grito, à ameaça, à agressão física e, em casos extremos, ao homicídio. Quem nunca foi autorizado a sentir dificilmente aprende a cuidar do que sente. E, quando a palavra falta, a violência ocupa seu lugar.

Educar uma criança exige exatamente o contrário. Exige que o adulto seja capaz de conter a si mesmo antes de tentar conter o filho. Exige reconhecer que a criança não nasceu para satisfazer as expectativas dos pais. Ela não existe para obedecer automaticamente, confirmar desejos ou preservar o orgulho de ninguém.

Criar um ser humano dá trabalho. Dá muito trabalho.

Porque filhos frustram. Contrariam. Esquecem o bom dia. Fazem birra. Testam a paciência. Erram. E continuarão errando por muitos anos, justamente porque estão aprendendo a ser gente.

Talvez o maior desafio da parentalidade seja aceitar que nossos filhos não são extensões de nós mesmos. São sujeitos, com desejos próprios, tempos próprios e um longo caminho de amadurecimento pela frente.

Educar é acompanhar esse caminho com firmeza, mas também com respeito. É colocar limites sem humilhar. Corrigir sem ferir. Ensinar sem aterrorizar.

Toda vez que o medo ocupa o lugar do cuidado, deixamos de formar seres humanos para apenas produzir sobreviventes.

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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/

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