Leia a coluna da semana (10/8/2026):
Ser pai também se aprende
Por Juliana Ramiro
O domingo passou. As redes sociais foram tomadas por homenagens, fotografias e declarações emocionadas pelo Dia dos Pais. Mas, passada a celebração, talvez seja justamente agora o momento mais oportuno para refletirmos sobre o que, afinal, significa ser pai.
Na psicanálise, quando falamos em função materna e função paterna, não estamos falando, necessariamente, da mãe e do pai biológicos. Estamos falando de funções psíquicas, atribuídas pela criança às pessoas que cuidam dela. É a criança quem reconhece quem acolhe, quem protege, quem apresenta os limites, quem ajuda a transformar o desamparo em possibilidade de existir.
Por isso, um pai pode exercer a função materna. Uma mãe pode exercer aspectos da função paterna. Avós, tios, padrastos, madrastas e outros cuidadores também podem ocupar esses lugares. O que define essas funções não é o gênero, mas a presença psíquica. Estar ali de corpo inteiro, disponível para sustentar o vínculo, acolher o sofrimento, frustrar quando necessário e permanecer, mesmo quando a relação se torna difícil.
Talvez uma das maiores dificuldades que muitos homens enfrentem na paternidade seja justamente esta: como exercer o cuidado quando passaram a vida sendo ensinados a evitá-lo?
Grande parte dos homens de hoje cresceu sem uma referência de uma paternidade suficientemente boa. Muitos tiveram pais emocionalmente ausentes, distantes ou cuja principal missão parecia ser apenas trabalhar e prover financeiramente a família. Além disso, nossa cultura, durante muito tempo, também não educou os meninos para o cuidado. Ensinou-os a competir, a suportar, a vencer, a esconder o medo, a não chorar. Pouco lhes ensinou sobre acolher, brincar, escutar ou consolar.
Homens precisam cuidar sem nunca terem aprendido.
Essa realidade aparece com frequência no consultório. Atendo pais que desejam profundamente ser pais. O desejo existe. O amor também. O que falta, muitas vezes, é um repertório. Diante das primeiras dificuldades, da birra, do choro, da adolescência ou dos conflitos inevitáveis, alguns simplesmente saem de cena. Não porque não amem seus filhos, mas porque não suportam sentir que não sabem o que fazer.
São homens fortes para os negócios, competentes para resolver problemas complexos, mas frágeis para sustentar os desafios da relação com os filhos.
Vejo também pais que acreditam que prover financeiramente equivale à presença. Pais que imaginam que endurecer é ensinar o filho a ser homem. Pais que, emocionalmente, permanecem filhos de suas próprias esposas, esperando delas o cuidado, a organização da vida familiar e até mesmo a mediação da relação com os filhos.
São homens igualmente aprisionados pelas expectativas sociais sobre masculinidade. Perdidos entre o que lhes disseram que é ser homem e o que nunca lhes ensinaram sobre ser pai.
Mas há algo que também me emociona na clínica.
Já acompanhei pais que procuraram terapia justamente para revisitar a própria história. Homens que decidiram enfrentar as marcas deixadas pela paternidade que receberam para não repeti-las com seus filhos. Eles compreenderam que cuidar dos filhos, às vezes, exige primeiro cuidar da criança que ainda vive dentro de si. Esse talvez seja um dos gestos mais corajosos que um pai pode realizar.
A psicanálise nos ensina que ninguém ocupa essas funções de maneira perfeita. Não existe pai perfeito, nem mãe perfeita. Donald Winnicott já nos lembrava da importância de sermos suficientemente bons, e talvez essa seja uma das ideias mais libertadoras para quem cria um filho.
O que movimenta o cuidado não é a perfeição. É o desejo. É a responsabilidade. É a disposição de permanecer presente mesmo quando não se sabe exatamente qual é a resposta certa.
Filhos realmente não vêm com manual. Mas podemos aprender a amá-los. Podemos aprender a escutá-los. Podemos aprender a reparar nossos erros. E, quem sabe, enquanto ensinamos nossos filhos a caminhar pela vida, a nossa própria criança interior também encontre, finalmente, um pouco mais de amor, de cuidado e de paz.
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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/
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