PODCASTQuando a separação acontece e a criança acredita que foi abandonada

Leia a coluna da semana (03/8/2026):

Quando a separação acontece e a criança acredita que foi abandonada

Por Juliana Ramiro

Existe uma dor silenciosa que acompanha muitas separações. Ela não aparece na assinatura dos papéis, na mudança de endereço ou na divisão dos bens. Ela aparece no coração da criança que, sem compreender a complexidade das relações adultas, tenta encontrar uma explicação para aquilo que sente.

E, quase sempre, encontra uma resposta cruel: “O papai foi embora porque não me ama mais.”

Essa frase raramente é dita em voz alta. Ela se manifesta nas entrelinhas, no medo de perguntar, na ansiedade antes das visitas, na tristeza quando um dos pais vai embora novamente, no esforço exagerado para agradar, como se ser uma criança “boazinha” pudesse impedir uma nova despedida.

Foi exatamente sobre esse olhar que escrevi o capítulo 19 do meu livro O que eu queria que você soubesse, intitulado “Quando vocês se separam e eu sinto que o papai me abandonou”.

Nesse capítulo, a voz é da criança. Ela escreve para a mãe dizendo que a casa perdeu o cheiro do café, que o travesseiro do pai não está mais na cama e que os dias entre uma visita e outra parecem intermináveis. Em um dos trechos mais sensíveis, ela diz: “Eu sei que vocês não deixaram de me amar, mas o amor agora parece morar em duas casas, e eu ainda não aprendi a morar dividido.”

Essa frase sintetiza algo que a psicanálise observa há muito tempo. A criança ainda não possui os recursos emocionais para compreender que o fim do casamento não representa o fim da parentalidade. Ela percebe a ausência física antes de compreender a permanência do vínculo afetivo. Por isso, muitas vezes interpreta a distância como abandono.

John Bowlby, ao desenvolver a Teoria do Apego, mostrou que a previsibilidade da presença das figuras de cuidado constitui a chamada base segura. Quando essa organização se rompe, a criança experimenta insegurança e pode acreditar que perdeu também o amor daquele que saiu de casa.

Donald Winnicott acrescenta uma reflexão igualmente importante ao afirmar que o desenvolvimento emocional depende da continuidade do ambiente. Quando tudo muda de uma vez, casa, rotina, horários e convivência, a criança precisa de adultos capazes de sustentar emocionalmente aquilo que deixou de ser sustentado pela rotina.

É justamente aí que muitos pais se confundem. Separar-se do cônjuge não significa separar-se dos filhos.

Infelizmente, alguns adultos desaparecem emocionalmente junto com a mudança de endereço. Outros permanecem presentes, mas falam tão mal do ex-companheiro que obrigam a criança a escolher entre amar um ou outro. Em ambos os casos, quem perde é a infância.

A criança não precisa de um casamento perfeito. Ela precisa da certeza de que continua pertencendo aos dois. Precisa ouvir, repetidas vezes, que não causou a separação, que não precisa escolher lados e que o amor dos pais não acabou, apenas passou a ocupar casas diferentes.

Quando essa segurança é construída por meio de palavras, presença, rotina e respeito entre os adultos, a separação deixa de ser uma experiência de abandono para tornar-se uma reorganização possível da vida.

Este tema faz parte do meu livro O que eu queria que você soubesse. Se esta reflexão despertou teu interesse, tenho certeza de que encontrarás, ao longo da leitura, muitas outras que poderão ampliar teu olhar sobre a infância, os vínculos familiares e o desenvolvimento emocional das crianças. O livro está disponível na Amazon.

Te convido a refletir mais sobre este e outros temas acompanhando os episódios do Psi Por Aí, disponíveis no YouTube e no Spotify. E claro, siga também o Psi Por Aí nas redes sociais. Aceito sugestões de temas! Até a próxima semana.

Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/

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