PODCASTQuem ensinou os meninos a não ouvir um não?

Leia a coluna da semana (17/8/2026):

Quem ensinou os meninos a não ouvir um não?

Por Juliana Ramiro

Nesta semana, fui convidada para conversar com estudantes de uma escola de Tramandaí sobre gênero, masculinidades, consentimento e respeito. Enquanto preparava essa fala, uma pergunta foi ficando comigo: quanto daquilo que acreditamos ser uma escolha nossa foi aprendido antes mesmo de termos condições de escolher?

Nós não chegamos ao mundo no vazio. Quando nascemos, já existem uma família, uma cultura, uma história e ideias sobre o que é certo e errado, bonito e feio, masculino e feminino. Às vezes, antes mesmo do nascimento, uma ultrassonografia anuncia “é menino” ou “é menina” e, junto com essa informação, começam a surgir expectativas sobre cores, roupas, brinquedos, comportamentos e até sobre quem aquela criança deverá se tornar.

“Menino não chora.” “Menina é mais delicada.” “Homem tem que tomar iniciativa.” “Menina tem que se dar ao respeito.” “Homem que é homem pega várias.” Quem disse?

Muitas vezes, ninguém sabe. Mas todo mundo já escutou.

É assim que certas ideias ganham aparência de natureza quando, na verdade, carregam história, cultura e relações de poder. A psicanálise nos ajuda a compreender que não somos constituídos apenas por escolhas conscientes. Somos também atravessados por identificações, expectativas, proibições e discursos que nos antecedem. Repetimos muitas coisas antes mesmo de perceber que estamos repetindo.

Penso especialmente no que ensinamos aos meninos. Ainda é comum que crescer como homem venha acompanhado de uma espécie de treinamento para esconder vulnerabilidades: não chore, não demonstre medo, não seja frouxo, aguente, reaja, prove que é homem.

Depois esperamos que esse mesmo menino, adulto, saiba conversar sobre sentimentos, pedir ajuda, lidar com frustrações, cuidar, dividir responsabilidades e receber uma rejeição sem vivê-la como uma afronta à própria masculinidade. Há uma contradição importante aí.

Quando um menino aprende que precisa demonstrar o tempo inteiro que é forte, desejado, dominante e sexualmente experiente, muitas situações podem começar a ser vividas como ameaça. Uma derrota. Uma brincadeira. Outro menino que não corresponde ao modelo esperado. Uma menina que diz não.

E é justamente aqui que a conversa sobre masculinidade encontra a conversa sobre consentimento. Desejar alguém não é um problema. Desejamos amor, atenção, reconhecimento, beijo, namoro, pertencimento. O problema começa quando confundimos duas coisas muito diferentes: eu quero e eu tenho direito. Meu desejo não cria uma obrigação para o outro.

Talvez uma das aprendizagens mais difíceis da vida seja justamente essa: o outro continua sendo outro. Ele não existe para corresponder às minhas expectativas, reparar minhas inseguranças ou confirmar meu valor. Ele tem desejos próprios — e pode não me desejar.

Consentimento, portanto, não deveria ser uma conversa restrita ao sexo. Ele começa muito antes: “Posso te abraçar?”, “Posso postar essa foto?”, “Posso contar isso?”, “Posso olhar teu celular?”. São pequenas experiências em que aprendemos que intimidade não significa posse.

E talvez tão importante quanto ensinar alguém a dizer “não” seja ensinar o outro a escutar um não. O que acontece dentro de nós quando somos contrariados? Raiva? Vergonha? Tristeza? Sensação de rejeição? Vontade de insistir?

Não escolhemos tudo o que sentimos. Mas somos responsáveis pelo que fazemos com aquilo que sentimos. Um não pode frustrar, entristecer e até ferir nosso narcisismo. Ainda assim, continua sendo um não. O limite do outro não é uma agressão contra nós. É apenas a marca de que existe ali alguém separado de nós, com vontade própria.

Por isso, quando falamos sobre respeito, talvez seja preciso ir além de ensinar boas maneiras. Respeitar é reconhecer que o outro é um sujeito, e não um objeto destinado a satisfazer meu desejo.

Conversar sobre isso com adolescentes não significa dizer a eles o que devem pensar. Significa oferecer perguntas sobre mensagens que eles já recebem todos os dias — em casa, entre amigos, nas redes sociais, nas músicas, nos relacionamentos.

E talvez possamos começar pelas mesmas perguntas com que encerrei aquela conversa: Quanto do que eu sou eu realmente escolhi? E, principalmente, quanto daquilo que aprendi eu posso escolher mudar? Talvez seja justamente aí que alguma liberdade comece.

Te convido a refletir mais sobre este e outros temas acompanhando os episódios do Psi Por Aí, disponíveis no YouTube e no Spotify. E claro, siga também o Psi Por Aí nas redes sociais. Aceito sugestões de temas! Até a próxima semana.

Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/

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