Leia a coluna da semana (24/8/2026):
A gente fala tanto. Por que é tão difícil dizer?
Por Juliana Ramiro
Uma das características mais fascinantes da espécie humana é a linguagem. Podemos transformar sentimentos, desejos, medos e pensamentos em palavras e compartilhá-los com o outro. Temos uma ferramenta extraordinária para nos relacionarmos e, paradoxalmente, talvez esteja justamente aí um dos nossos grandes calcanhares de Aquiles. Porque falar não significa necessariamente conseguir dizer.
No consultório, isso aparece o tempo todo. Casais que não conseguem conversar sem transformar o diálogo em acusação ou defesa. Mães que têm dificuldade de chegar aos filhos. Adolescentes que não encontram palavras para aquilo que vivem e acabam fechados no silêncio do próprio quarto. Crianças que também sofrem, mas ainda não conseguem dizer do seu sofrimento. Todos sentem. Nem todos conseguem falar sobre o que sentem.
Talvez porque nossa educação ainda seja pouco voltada para o dizer. Perguntamos pouco às crianças o que pensam, o que desejam, o que estão sentindo. Muitas vezes também não explicamos a elas aquilo que está acontecendo. Queremos que parem de chorar antes de saber por que choram. Corrigimos um comportamento antes de tentar compreender o que ele comunica. E a criança aprende que algumas emoções devem ser escondidas, que determinadas perguntas incomodam, que desejar pode ser inadequado. Mas aquilo que não encontra palavras não simplesmente desaparece. A psicanálise nos ensina que o sujeito também fala por seus silêncios, sintomas, repetições e atos. Aquilo que não conseguimos dizer pode encontrar outras maneiras, muitas vezes dolorosas, de aparecer.
A criança cresce. Pode tornar-se o adolescente que se fecha no quarto e, mais tarde, o adulto que não consegue conversar sem violência, que espera que o outro adivinhe suas necessidades ou que responde com agressividade quando, na verdade, está triste, inseguro ou com medo. Às vezes dizemos “você não se importa comigo” quando gostaríamos de dizer “estou me sentindo sozinho”. Dizemos “faça o que quiser” quando gostaríamos de pedir “fica”. Atacamos quando queríamos ser acolhidos. E assim nossas relações vão se enchendo de não ditos, interpretações, ressentimentos e expectativas que nunca foram transformadas em palavras.
É na infância que começamos a construir nossa relação com a palavra, mas nunca é tarde para aprender a falar de si. Muitas vezes, o processo terapêutico revela justamente alguém que sabe falar sobre tudo, trabalho, filhos, problemas, responsabilidades, menos sobre aquilo que sente e deseja. E então perguntas aparentemente simples podem ser profundamente difíceis: O que você está sentindo? O que você deseja quando está sozinho? O que você gostaria de dizer, mas não consegue? O que te faria feliz hoje?
Talvez aprender a se relacionar com o outro passe, antes, por aprender a reconhecer aquilo que acontece dentro de nós. Não existe comunicação perfeita. Sempre haverá desencontros. Mas existe a possibilidade de perguntar em vez de presumir, escutar antes de responder e tentar dizer “isso me machucou” em vez de simplesmente machucar de volta. Temos a palavra. Talvez o desafio de uma vida inteira seja aprender, de fato, a usá-la.
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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/
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