Leia a coluna da semana (18/05/2026):
Quando a mentira vira discurso: o que a fala de Juliano Cazarré revela sobre a crise do masculino
Por Juliana Ramiro
Recentemente, o ator Juliano Cazarré foi à televisão afirmar, com absoluta tranquilidade, que mulheres matam mais homens do que homens matam mulheres. Citou números como quem recita uma verdade incontestável: “2.500 contra 1.500”. O problema é que os números não correspondem à realidade. E mais grave do que o erro é a intenção política e simbólica por trás dele.
O que ele fez foi uma manipulação clássica: comparou todas as mortes violentas de homens — incluindo latrocínio, guerra entre facções, brigas de rua, confrontos armados e lesões corporais seguidas de morte — com apenas um recorte específico das mortes de mulheres: o feminicídio.
Mas afinal, o que é feminicídio?
Feminicídio não é simplesmente o assassinato de uma mulher. É o assassinato de uma mulher motivado pela condição de ela ser mulher. É quando uma mulher é morta porque ousou terminar uma relação, porque recusou controle, porque quis existir para além do desejo masculino. É um crime atravessado por posse, poder e violência de gênero.
E existe um dado fundamental que muda completamente essa conversa: o perigo, para as mulheres, está dentro de casa.
Na maioria dos casos, o agressor não é um desconhecido na rua. É o marido. O namorado. O ex-companheiro. O homem que dizia amar. Cerca de 80% dos feminicídios são cometidos por parceiros ou ex-parceiros, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Em 2025, o Brasil registrou 1.568 feminicídios — o pior número desde que o crime foi tipificado, em 2015. Em dez anos, foram 13.703 mulheres assassinadas por razões de gênero em nosso país. São mulheres mortas dentro das próprias casas, muitas vezes diante dos filhos, após um histórico longo de violência, ameaça, silenciamento e medo.
Quando alguém distorce esses dados em rede nacional, não está apenas “opinando”. Está tentando desqualificar uma tragédia social histórica. Está tentando reduzir a gravidade de uma violência estrutural que mata mulheres porque elas estão deixando de aceitar certos lugares impostos a elas.
E talvez seja justamente aí que mora o incômodo.
Há uma crise do masculino acontecendo. E não, isso não significa que homens estejam “perdendo direitos”. Significa que muitos homens não estão conseguindo se pensar para além do lugar de centralidade que ocuparam historicamente dentro das famílias, das relações e da sociedade.
Durante muito tempo, o homem foi colocado como provedor absoluto, autoridade máxima e eixo da vida doméstica. Mas o mundo mudou. As mulheres passaram a trabalhar, sustentar casas, ocupar espaços de poder, decidir sobre o próprio corpo, encerrar relações violentas e reivindicar autonomia. E parte dos homens não aprendeu a existir afetivamente fora da lógica do controle.
Quando esse homem não sabe lidar com frustração, perda de poder ou rejeição, a violência aparece como recurso. Porque foi essa a linguagem emocional ensinada a ele desde cedo.
E aqui existe uma responsabilidade coletiva que precisa ser dita sem simplificações. Nós também educamos essa masculinidade. Educamos quando naturalizamos o menino agressivo como “forte”. Quando oferecemos liberdade para os filhos homens e vigilância para as meninas. Quando ensinamos que homem não chora, mas pode gritar. Quando perdoamos violências “porque ele é assim”. Quando apresentamos como referência homens incapazes de cuidar, dialogar ou demonstrar vulnerabilidade.
A masculinidade violenta não nasce pronta. Ela é produzida culturalmente nos detalhes mais cotidianos: nos brinquedos, nas frases, nos exemplos, nas ausências emocionais e nas permissões silenciosas.
A psicanálise nos ajuda a compreender que toda identidade construída sobre poder absoluto entra em crise quando o outro deixa de obedecer. E talvez parte da violência masculina contemporânea venha exatamente daí: da incapacidade de lidar com mulheres que deixaram de existir apenas como extensão do desejo masculino.
Por isso, discutir feminicídio não é promover uma “guerra entre homens e mulheres”. É enfrentar um modelo adoecido de masculinidade que também destrói homens — emocionalmente, afetivamente e socialmente. Negar os dados, inverter estatísticas ou debochar da realidade não resolve a crise. Apenas protege estruturas que continuam matando.
E enquanto parte da sociedade ainda tenta relativizar o feminicídio, milhares de mulheres seguem dormindo ao lado do próprio risco.
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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/
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