Leia a coluna da semana (14/9/2026):
Setembro Amarelo: o desejo de morrer também é um pedido para que a dor termine
Por Juliana Ramiro
Setembro chegou e, com ele, o amarelo tomou as campanhas, as redes sociais e as mensagens sobre prevenção ao suicídio. Fale. Peça ajuda. Você não está sozinho. São mensagens importantes, mas talvez seja preciso ir além delas e tentar escutar uma pergunta mais difícil: o que uma pessoa deseja interromper quando pensa em interromper a própria vida?
Em O Mito de Sísifo, Albert Camus escreve uma frase que sempre me provoca: “Às vezes morremos por aquilo que viveríamos.”
Há algo profundamente humano nesse paradoxo. Muitas vezes, quando alguém pensa em morrer, talvez não seja exatamente a vida que se tornou indesejável. É a vida daquele jeito que se tornou insuportável.
É a angústia que não cessa. Uma perda que parece impossível de atravessar. Uma violência que continua acontecendo por dentro, mesmo depois de ter terminado por fora. A solidão, a culpa, a vergonha, o abandono, o trauma ou um sofrimento que a própria pessoa já não consegue nomear.
Por isso, quando falamos de suicídio, é importante não confundir o desejo de acabar com o sofrimento com uma simples ausência de desejo de viver. Em algumas situações, a pessoa deseja desesperadamente uma saída, mas já não consegue enxergá-la. A morte passa a ocupar o lugar de uma solução para uma dor que parece não ter solução.
Isso não significa romantizar o suicídio, nem supor que todas as pessoas vivenciem esse sofrimento da mesma maneira. Cada história é singular. Mas significa reconhecer que, por trás de um desejo de morrer, pode existir também uma luta desesperada contra aquilo que tornou a vida insuportável.
A psicanálise nos ensina que aquilo que não conseguimos elaborar não simplesmente desaparece. Traumas, perdas, violências, abandonos e conflitos continuam produzindo efeitos. Falar não apaga o que aconteceu. Elaborar não significa esquecer. Mas colocar uma experiência em palavras pode transformar a maneira como convivemos com aquilo que vivemos.
Às vezes, é justamente quando estamos sofrendo mais que perdemos a capacidade de imaginar alternativas. A pessoa olha para a própria vida e enxerga um corredor sem portas. Nesse momento, a presença de alguém pode ser fundamental. Não porque esse alguém terá necessariamente uma resposta, mas porque pode ajudar a sustentar aquilo que parece impossível sustentar sozinho.
Por isso, dizer “procure ajuda” é importante, mas não basta. Também precisamos estar disponíveis para escutar. E escutar sem julgamento, sem respostas prontas, sem dizer “você precisa reagir”, “pense na sua família” ou “vai passar”. Talvez seja mais importante perguntar: “Quer me contar o que está acontecendo?” E conseguir permanecer ali para ouvir a resposta.
Neste Setembro Amarelo, talvez possamos trocar a pergunta “por que alguém desejaria morrer?” por outra: “O que está doendo tanto que fez essa pessoa acreditar que não havia outra saída?”
Porque pode existir, por trás do desejo de morrer, um desejo de não continuar vivendo daquela maneira. E entre uma coisa e outra existe um espaço precioso. Um espaço onde podem caber a escuta, o cuidado, o tratamento, a elaboração e a possibilidade de construir outras saídas.
Se você está atravessando um sofrimento intenso ou pensando em tirar a própria vida, procure ajuda. Fale com alguém de confiança e busque atendimento profissional. Você não precisa encontrar uma saída sozinho.
Te convido a refletir mais sobre este e outros temas acompanhando os episódios do Psi Por Aí, disponíveis no YouTube e no Spotify. E claro, siga também o Psi Por Aí nas redes sociais. Aceito sugestões de temas! Até a próxima semana.
Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/
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