PODCASTPor que pioramos o que já estava ruim?

Leia a coluna da semana (07/9/2026):

Por que pioramos o que já estava ruim?

Por Juliana Ramiro

Há um movimento psíquico descrito por Freud desde seus primeiros trabalhos que me interessa especialmente porque aparece muito na clínica: a tentativa de transformar uma experiência vivida passivamente em algo que podemos viver de forma ativa.

Em outras palavras: diante daquilo que nos aconteceu sem que pudéssemos escolher, reagir ou impedir, podemos tentar inverter as posições. De algum modo, saímos do lugar de quem sofre para ocupar o lugar de quem faz.

Essa ideia ajuda a pensar, por exemplo, por que uma criança agressiva na escola pode estar contando, através da violência, algo da violência que vive em casa. Ou por que algumas pessoas que sofreram abusos podem, mais tarde, reproduzir relações abusivas. Isso, evidentemente, não é uma regra: ter sido vítima de violência não transforma ninguém inevitavelmente em agressor.

Mas quero falar aqui de movimentos muito menores. Daqueles que fazemos quase todos os dias e que, justamente por serem pequenos, muitas vezes passam despercebidos.

Imagine que estou voltando do supermercado a pé, carregando algumas sacolas. Alguém esbarra em mim e, com o impacto, uma delas cai no chão. Tomada pela raiva, eu mesma atiro as outras no chão e começo uma briga.

Já estava ruim. Eu piorei.

Parece absurdo quando colocado assim. Mas quantas vezes fazemos exatamente isso com a nossa vida?

Diante da sensação de que posso ser abandonada, abandono primeiro. Jogo fora justamente a pessoa com quem gostaria de ficar.

Diante de uma humilhação, continuo o trabalho de quem me humilhou: me diminuo, me agrido, me convenço de que não tenho valor.

É como se dissesse ao outro: você pode até tentar me destruir, mas ninguém sabe fazer isso melhor do que eu.

Em que momento viramos nossos piores torturadores para escapar da sensação de estarmos passivamente à mercê do outro?

Há algo de paradoxal nesse movimento. Ao produzir ativamente parte daquilo que antes apenas sofríamos, recuperamos uma sensação de domínio. Já não sou somente aquela que foi deixada: sou aquela que deixa. Já não sou apenas aquela que perdeu: sou eu quem joga tudo no chão.

Só que o preço dessa tentativa de sair da impotência pode ser alto.

Quantas situações ruins você já tornou ainda piores porque não suportou a sensação de estar passivamente submetida ao que estava acontecendo?

Olhar para esses pequenos movimentos psíquicos, pequenos, mas muito simbólicos, é também uma forma de nos implicarmos mais na própria vida. De perceber o instante em que, tentando escapar da condição de quem sofre, nos tornamos cúmplices do próprio sofrimento.

E talvez uma das tarefas mais difíceis seja justamente suportar que nem tudo está sob nosso controle. Podemos ser frustrados, rejeitados, contrariados e feridos sem precisar terminar o serviço.

Acolher essa passividade não significa aceitar violência, submissão ou injustiça. Significa reconhecer que algumas coisas nos acontecem. E que, depois de muita elaboração, nomeação e escuta, talvez possamos aprender a acolher também a nossa impotência diante delas, sem causar ainda mais estragos.

Às vezes, cuidar de uma ferida começa por uma decisão aparentemente pequena: não aumentá-la.

Te convido a refletir mais sobre este e outros temas acompanhando os episódios do Psi Por Aí, disponíveis no YouTube e no Spotify. E claro, siga também o Psi Por Aí nas redes sociais. Aceito sugestões de temas! Até a próxima semana.

Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/

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