PODCASTSolastalgia: quando a chuva já não é só chuva

Leia a coluna da semana (01/9/2026):

Solastalgia: quando a chuva já não é só chuva

Por Juliana Ramiro

Chove no Rio Grande do Sul. Estamos no início de setembro e a chuva continua. E, junto com ela, aparece uma frase que tenho ouvido, e pensado, com frequência: “antigamente não era assim”.

Talvez nossa memória não seja um registro meteorológico confiável. Mas essa frase diz alguma coisa importante sobre como estamos percebendo o lugar onde vivemos. As estações parecem menos previsíveis, os eventos climáticos extremos passaram a fazer parte das nossas conversas e, depois das enchentes que marcaram tão profundamente o Rio Grande do Sul, a chuva ganhou outro significado. Ela já não é só chuva.

Existe um termo para um sofrimento que nasce justamente da percepção de que o ambiente onde vivemos está se transformando: solastalgia. Diferentemente da nostalgia, em que sentimos saudade de um lugar do qual estamos distantes, na solastalgia continuamos no mesmo lugar, mas ele já não nos parece o mesmo. É como sentir saudade sem ter ido embora.

E isso tem uma dimensão psíquica muito interessante. Nós precisamos de alguma familiaridade para habitar o mundo. A casa, a cidade, a paisagem, as estações do ano e até o clima participam da construção dessa sensação de continuidade. Quando aquilo que era familiar começa a produzir insegurança, alguma coisa também se desorganiza dentro de nós.

Freud falou do Unheimliche, o inquietante: aquilo que é conhecido e familiar, mas que, de repente, passa a provocar estranhamento. Penso nisso quando vejo o que a chuva passou a representar para muitos gaúchos. Depois de 2024, ouvir chover durante horas pode despertar mais do que preocupação com o tempo. Pode trazer lembranças, medo, antecipação. O corpo também se lembra daquilo que gostaríamos de esquecer.

É importante, porém, não transformar todo medo da chuva em diagnóstico. A solastalgia não deve servir para patologizar uma reação diante de uma realidade que efetivamente mudou. Pelo contrário: talvez nomear esse sentimento nos ajude a perceber que nem toda angústia nasce apenas dentro de nós.
Há sofrimentos que também são produzidos pelo mundo em que vivemos.

E existe algo especialmente difícil em perceber que o lugar que chamamos de casa pode continuar exatamente no mesmo endereço e, ainda assim, deixar de oferecer a mesma sensação de segurança.

Talvez seja isso que a solastalgia nos ajude a nomear: o luto por alguma coisa que ainda está aqui, mas já não é como antes.

Hoje continua chovendo no Rio Grande do Sul. E talvez, para muita gente, a chuva nunca mais seja apenas chuva.
Porque nós não apenas habitamos os lugares. Também somos habitados por eles.

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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/

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