PODCASTCopa do Mundo: Nem toda vitória está no placar

Leia a coluna da semana (29/06/2026):

Copa do Mundo: Nem toda vitória está no placar

Por Juliana Ramiro

Sou brasileira. E, como boa brasileira, toda Copa do Mundo desperta em mim algo que vai muito além do futebol. Ela nos faz falar de identidade, de pertencimento, de rivalidade, de esperança e, principalmente, de uma experiência que atravessa todos nós: ganhar e perder. Enquanto acompanho os jogos, algumas cenas têm chamado minha atenção.

Uma delas é perceber como, no futebol, nem sempre o dinheiro compra o protagonismo. Embora seja um esporte bilionário, muitos dos maiores nomes da história da Seleção Brasileira nasceram em favelas, comunidades e famílias marcadas pela pobreza.

Talvez seja justamente por isso que o futebol desperte tanta paixão. Ele alimenta a esperança de que alguém “como nós” possa vencer. Que o menino da periferia possa se tornar ídolo mundial. Que o improvável aconteça.

Essas histórias existem, são inspiradoras e merecem ser celebradas. Mas também nos convidam a refletir sobre como, muitas vezes, exceções acabam alimentando a ideia de que o esforço individual, sozinho, basta para vencer. O esporte revela talentos extraordinários, mas não elimina as profundas desigualdades sociais que continuam definindo as oportunidades de milhões de pessoas.

Outro aspecto que me emocionou nesta Copa foi observar a torcida de tantos brasileiros por seleções historicamente colonizadas quando enfrentavam antigas potências colonizadoras. Não era apenas futebol. Havia algo profundamente simbólico acontecendo ali. Como se, por noventa minutos, povos que passaram séculos ocupando lugares de submissão pudessem experimentar uma pequena reparação histórica. Um empate ou uma vitória deixavam de ser apenas um resultado esportivo para se transformar numa espécie de revanche simbólica, uma forma de dizer: nós também podemos.

Curiosamente, essa busca por igualdade encontra um limite quando olhamos para o esporte por outra perspectiva. Se vibramos tanto quando um país periférico enfrenta uma potência mundial, por que ainda é tão difícil oferecer o mesmo reconhecimento às mulheres no futebol? O futebol feminino continua recebendo menos investimentos, menos visibilidade e menos valorização. Mesmo tendo produzido atletas extraordinárias como Marta, considerada por muitos a maior jogadora da história, ainda convivemos com uma desigualdade que parece naturalizada.

Fato! Algumas vitórias ainda interessam mais do que outras.

Mas há outra cena que me encanta durante a Copa. As famílias reunidas diante da televisão. Pais, mães, avós e filhos compartilhando noventa minutos de emoção. Torcendo juntos. Sofrendo juntos. Comemorando juntos. E talvez essa seja também uma oportunidade de ensinar às crianças algo que vai muito além das regras do futebol. Ensinar que existem muitas formas de vencer.

Ao longo da história das Copas, algumas seleções comemoraram um empate como se fosse um título. Para quem olha apenas o placar, aquilo foi apenas um ponto. Para quem conhece a história daquele povo, representou uma conquista inédita, a superação de um limite e a realização de um sonho coletivo.

E isso muda tudo. Porque vencer nunca depende apenas do resultado. Depende também do ponto de partida. Talvez essa seja uma das maiores lições que o esporte pode nos oferecer. Nem toda derrota significa fracasso. Nem toda vitória significa sucesso.

Às vezes, perder nos obriga a reconhecer limites, rever estratégias, suportar frustrações e continuar caminhando. E essa talvez seja uma das experiências mais importantes da vida.

A psicanálise nos ensina que é justamente a partir da experiência da falta — daquilo que Freud chamou de castração simbólica — que o sujeito cresce. Não amadurecemos porque conseguimos tudo o que desejamos. Amadurecemos quando aprendemos que nem todos os desejos serão realizados e, ainda assim, seguimos vivendo, criando e desejando.

Talvez seja por isso que a Copa nos mobilize tanto. Porque ela fala menos sobre futebol do que sobre a própria condição humana. Todos nós, em algum momento, ganhamos. Todos nós, em algum momento, perdemos. Mas talvez a pergunta mais importante nunca tenha sido quem venceu. E sim o que cada vitória e cada derrota foram capazes de nos ensinar.

Te convido a refletir mais sobre este e outros temas acompanhando os episódios do Psi Por Aí, disponíveis no YouTube e no Spotify. E claro, siga também o Psi Por Aí nas redes sociais. Aceito sugestões de temas! Até a próxima semana.

Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/

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