PODCASTPara ser adulto, é preciso ter o direito de ser criança

Leia a coluna da semana (03/11/2026):

Para ser adulto, é preciso ter o direito de ser criança

Por Juliana Ramiro

Há algo que costumo dizer com frequência na clínica: não podemos esperar de uma criança o comportamento de um adulto. Parece óbvio, mas basta observarmos as expectativas que depositamos sobre as crianças para percebermos o quanto nos esquecemos disso.

Queremos que nossos filhos se tornem adultos respeitosos, responsáveis, capazes de compreender limites, lidar com frustrações, pensar antes de agir e cuidar dos outros. Mas, muitas vezes, exigimos que eles já apresentem todas essas capacidades durante a infância.

Queremos que saibam esperar, dividir, emprestar, controlar impulsos, respeitar regras e administrar emoções. E, de preferência, que façam tudo isso sem reclamar, chorar ou nos contrariar.

Mas uma criança não é um adulto que ainda não aprendeu a se comportar. É alguém em pleno processo de desenvolvimento emocional e psíquico. Muitas das capacidades que esperamos dela ainda estão sendo construídas. E não adianta forçar. Amadurecimento não acontece por imposição.

Winnicott, psicanalista que dedicou grande parte de sua obra ao desenvolvimento emocional infantil, nos ajuda a compreender a importância de um ambiente que respeite o tempo e as necessidades da criança. Para amadurecer, ela precisa encontrar adultos capazes de acolher sua imaturidade, sem exigir que abandone precocemente sua espontaneidade para corresponder às expectativas dos outros.

Isso não significa permitir tudo ou deixar de estabelecer limites. Significa compreender que ensinar uma criança a lidar com a frustração é muito diferente de exigir que ela já saiba fazer isso. O adulto precisa oferecer o limite, mas também ajudar a criança a suportar os sentimentos que esse limite provoca.

Quando exigimos aquilo que ela ainda não tem condições de oferecer, corremos o risco de produzir um sentimento profundo de incapacidade. A criança pode começar a acreditar que está sempre errando, que nunca é boa o suficiente. E, diante de tantas tentativas frustradas, pode até desistir de tentar, apresentando comportamentos cada vez mais difíceis.

Mas há um risco ainda mais silencioso: o de a criança abrir mão de si mesma para atender às expectativas dos adultos. Tornar-se excessivamente obediente, comportada, madura para a idade. Aprender a não reclamar, não contrariar, não demonstrar raiva. Não porque tenha desenvolvido essas capacidades, mas porque percebeu que, para ser aceita, precisa esconder partes de si.

E isso pode custar muito caro. Afinal, quantos adultos conhecemos que sabem agradar a todos, mas não conseguem reconhecer os próprios desejos? Que respeitam os limites dos outros, mas não conseguem estabelecer os seus?

Educar uma criança para que se torne um adulto emocionalmente saudável exige, antes de tudo, que sejamos capazes de tolerar e respeitar a criança que está diante de nós. Inclusive quando ela nos desafia, nos frustra e nos coloca diante das nossas próprias dificuldades.

Nem tudo o que nos incomoda no comportamento infantil precisa ser corrigido. Algumas coisas precisam ser compreendidas e acompanhadas. A infância não é um defeito que a educação precisa consertar.

Talvez precisemos lembrar, mais vezes, que só consegue ser adulto quem teve a possibilidade de ser criança. E que o melhor que podemos oferecer aos nossos filhos é o direito de viver cada uma de suas fases, com suas possibilidades e limitações, mesmo quando temos dificuldade de lidar com elas.

Porque educar não é apressar o amadurecimento. É oferecer condições para que ele aconteça.

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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/

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