Leia a coluna da semana (12/10/2026):
Consciência dói. Talvez por isso tanta gente prefira não ter.
Por Juliana Ramiro
Ter consciência de si não é tarefa simples. Significa reconhecer nossos acertos, erros, potencialidades e fragilidades. É perceber aquilo que depende de nós, mas também aceitar que existem coisas sobre as quais não temos controle. E talvez seja justamente aí que comece a parte mais difícil: reconhecer nossos limites e o desamparo que acompanha a condição humana.
Mas a consciência de si não existe separada da consciência do outro e do mundo em que vivemos. Uma mulher negra no Brasil, por exemplo, não parte do mesmo lugar que um homem branco. Seu gênero e sua raça atravessam suas oportunidades, seus medos e suas possibilidades. Reconhecer isso exige compreender que nem tudo é resultado de esforço individual. Existe uma estrutura social que nos constitui e que também determina parte de nossos destinos.
E essa percepção pode ser profundamente angustiante. Porque nos obriga a abandonar a fantasia de que controlamos tudo.
No texto O futuro de uma ilusão, Freud discute como a religião pode funcionar como uma resposta ao desamparo humano. Diante de um mundo imprevisível, da morte, do sofrimento e das forças que não conseguimos dominar, construímos a imagem de um Deus protetor, uma figura paterna poderosa que sabe o que nós não sabemos e controla aquilo que nos escapa.
É uma maneira de tornar suportável nossa fragilidade. Se não tenho controle, alguém tem. E, se estou ao lado desse alguém, posso me sentir protegido.
Isso não significa reduzir toda experiência religiosa à alienação, mas reconhecer que a crença também pode funcionar como uma defesa contra aquilo que não suportamos saber. E não fazemos isso apenas com a religião.
Fazemos quando acreditamos que basta trabalhar duro para vencer, ignorando as desigualdades sociais. Quando esperamos que um líder político resolva todos os nossos problemas. Quando culpamos exclusivamente o indivíduo por seu sofrimento ou quando nos agarramos à ideia de que tudo acontece por uma razão.
São formas de organizar o mundo para não encarar sua complexidade. Ilusões que oferecem conforto, mas que também podem nos afastar da realidade.
É por isso que a consciência de classe é tão importante. Ela nos permite reconhecer nosso lugar nas relações sociais, compreender nossos interesses e perceber que nem sempre aquilo que desejamos ou defendemos está a serviço de nossas próprias necessidades.
Um processo terapêutico, de certa forma, também percorre esse caminho. Não para produzir uma versão idealizada de nós mesmos, mas para nos colocar diante daquilo que somos. Inclusive do que temos de mais difícil, contraditório e doloroso. Porque amadurecer não é eliminar nossas fragilidades. É conseguir reconhecê-las sem precisar fugir delas.
Talvez estejamos vivendo um processo coletivo de infantilização. Uma sociedade que deseja respostas simples para problemas complexos, que procura culpados em vez de compreender estruturas e que confunde liberdade com a possibilidade de fazer tudo o que deseja, sem considerar as consequências para o outro. E isso tem efeitos políticos.
Somos, muitas vezes, crianças feridas participando de um sistema democrático. Vamos às urnas movidos por medos, ressentimentos e fantasias de proteção. Escolhemos figuras que prometem força porque não suportamos reconhecer nossa vulnerabilidade. Defendemos interesses que não são nossos, atacamos aqueles com quem compartilhamos dificuldades e, por vezes, rejeitamos justamente as políticas que poderiam nos proteger.
Talvez porque reconhecer o que precisamos seja também admitir aquilo que nos falta. E isso dói.
A consciência de si, do outro e da realidade social não nos livra do desamparo. Mas pode nos libertar da necessidade de negá-lo.
Amadurecer é compreender que não somos onipotentes, que não somos todos iguais em nossas condições de existência e que nossas escolhas nunca dizem respeito apenas a nós mesmos.
Talvez só quando deixarmos de fingir que somos o que não somos, e de negar aquilo de que mais precisamos, possamos fazer escolhas verdadeiramente nossas. Mais conscientes, mais responsáveis e menos destrutivas.
Porque, no fim, crescer é também abandonar algumas ilusões. Inclusive aquelas que nos fazem acreditar que já somos adultos.
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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/
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