Leia a coluna da semana (19/10/2026):
O ódio não pode virar projeto
Por Juliana Ramiro
Estamos em período eleitoral no Brasil. Um momento em que deveríamos discutir propostas, avaliar projetos e decidir que país queremos construir. Afinal, a democracia pressupõe diferenças. Pensamos diferente, temos histórias, crenças e visões de mundo distintas, e precisamos aprender a conviver com isso.
Mas parece que, mais do que projetos para o futuro, o que tem ganhado destaque é o ódio. Estamos brigando em vez de dialogar, atacando em vez de argumentar e, o mais grave, agredindo em vez de debater.
Como chegamos a esse ponto?
A psicanálise pode nos ajudar a compreender parte desse fenômeno. Melanie Klein, importante psicanalista, desenvolveu dois conceitos fundamentais para pensar nossas relações com o outro: a posição esquizoparanoide e a posição depressiva.
Na posição esquizoparanoide, predominante no início da vida, o bebê ainda não consegue integrar os aspectos bons e ruins de uma mesma pessoa. O mundo fica dividido entre aquilo que é bom e aquilo que é mau. O que satisfaz é amado; o que frustra é percebido como ameaça. E aquilo que ameaça precisa ser atacado ou eliminado.
Já na posição depressiva, uma conquista do amadurecimento emocional, começamos a reconhecer que uma mesma pessoa pode ter qualidades e defeitos, nos agradar e nos frustrar. Aprendemos a suportar diferenças, contradições e a reconhecer o outro como alguém inteiro, separado de nós.
Essas posições não ficam restritas à infância. Todos nós podemos recorrer a formas mais primitivas de funcionamento psíquico, especialmente diante do medo e da insegurança.
E é justamente um funcionamento esquizoparanoide que parece dominar parte do debate político brasileiro.
O outro, aquele que pensa diferente, deixa de ser alguém com quem podemos discordar e passa a ser um inimigo que precisa ser destruído. Não há espaço para nuances, diálogo ou reconhecimento das diferenças.
Mas essa dinâmica não é apenas psíquica. Ela também pode ser estimulada e explorada como projeto político.
É o que vemos em setores de um conservadorismo extremo que não se contentam em defender seus valores, mas pretendem impor uma única maneira de viver, amar, constituir família, exercer a fé e existir. Quem escapa desse modelo passa a ser tratado como ameaça.
E, quando a política se organiza em torno da eliminação simbólica do diferente, o ódio deixa de ser apenas um sentimento e se transforma em instrumento de poder.
Há ainda outra questão: quando falta projeto para o futuro, sobra espaço para fabricar inimigos.
Nesta disputa eleitoral, Lula apresenta as realizações de seus governos e aquilo que pretende fazer caso seja reeleito. São propostas que podem e devem ser discutidas e criticadas. Já Flávio Bolsonaro, na minha avaliação, tem apostado mais no ataque ao governo e na promessa de fazer melhor do que na apresentação de caminhos concretos para o país.
Criticar é legítimo e necessário. Mas transformar a rejeição ao adversário na principal estratégia política é outra coisa. Quando o ódio ocupa o lugar das propostas, os fatos perdem espaço, o diálogo desaparece e a violência encontra terreno fértil.
É uma espécie de infantilização da política: o mundo dividido entre bons e maus, sem espaço para reconhecer que o outro pode pensar diferente e continuar tendo direito à existência.
E como saímos disso?
Talvez precisemos de algo aparentemente simples, mas profundamente difícil: amadurecer.
Na perspectiva de Klein, amadurecer também significa suportar que o outro tenha aquilo que não tivemos. Que alguém possa estudar onde não pudemos, amar com uma liberdade que nossos antepassados não tiveram, conquistar direitos que antes eram negados.
Por que a conquista do outro precisa ser vivida como uma ameaça? Por que, se eu sofri, o outro também deveria sofrer?
Uma sociedade mais madura deveria ser capaz de dizer: que bom que você teve oportunidades que eu não tive. Que bom que as próximas gerações poderão viver melhor.
Isso não significa aceitar tudo ou abrir mão de nossas convicções. Muito menos tolerar discursos que defendem a violência e a retirada de direitos. Significa compreender que discordar não exige destruir.
A democracia não pressupõe ausência de conflitos. Pressupõe a capacidade de enfrentá-los sem eliminar o outro.
A psicanálise nos ensina que o ódio faz parte da experiência humana. O problema não é senti-lo, mas o que fazemos com ele. Podemos reconhecê-lo e elaborá-lo ou transformá-lo em violência.
Talvez esteja na hora de crescermos um pouco e aceitarmos que o coleguinha pensa diferente, vive diferente e, ainda assim, merece respeito e direitos.
Existe uma expressão antiga que nunca fez tanto sentido e, talvez, nunca tenha nos faltado tanto: fazer o bem sem olhar a quem.
Porque o futuro de um país não pode ser construído sobre o desejo de destruir quem pensa diferente.
O ódio não pode virar projeto.
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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/
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