Leia a coluna da semana (22/06/2026):
Quando o ter tenta ocupar o lugar do ser
Por Juliana Ramiro
Vivemos em uma época que valoriza o ter. Ter uma casa maior. Ter um carro melhor. Ter mais conforto. Ter mais segurança financeira. Ter acesso ao que há de mais moderno. E, no meio dessa corrida, muitos pais e mães carregam uma convicção sincera: estou fazendo tudo isso pelos meus filhos. E talvez estejam mesmo. O problema é que, às vezes, sem perceber, acabamos confundindo o que damos aos nossos filhos com aquilo de que eles realmente precisam.
Nossa sociedade capitalista nos ensina que amar é prover. Quanto mais entregamos, mais demonstramos cuidado. Quanto mais trabalhamos, mais responsáveis somos. Quanto mais produzimos, mais valor temos. Mas a infância opera por outra lógica.
Uma criança não mede amor pela quantidade de objetos que recebe. Ela mede amor pela experiência de presença. Pelo olhar que a encontra. Pela conversa sem pressa. Pela brincadeira compartilhada. Pela sensação de que existe alguém disponível para ela.
É claro que as condições materiais importam. Ninguém cria um filho apenas com afeto. Alimentação, moradia, educação e segurança são necessidades reais. Não se trata de romantizar dificuldades ou ignorar os desafios econômicos que tantas famílias enfrentam.
Mas talvez seja necessário perguntar: em que momento o necessário se transforma em excesso? Em que momento passamos a trabalhar mais do que precisamos para comprar mais do que precisamos? E, principalmente, em que momento começamos a usar as coisas para tentar compensar o tempo que não conseguimos oferecer?
Muitas vezes, a frase “estou fazendo isso por você” carrega uma verdade. Mas também pode esconder um equívoco. Porque nem sempre a criança deseja aquilo que o adulto está se esforçando para entregar.
Existe uma diferença importante entre fazer tudo por um filho e fazer aquilo de que um filho necessita. Cuidar de alguém implica também reconhecer que esse alguém tem desejos, preferências, angústias e necessidades próprias. Quando oferecemos sem escutar, corremos o risco de responder mais às nossas expectativas do que à realidade da criança que está diante de nós.
A psicanálise nos ensina que todo pai e toda mãe carregam dentro de si uma imagem idealizada do filho. Um filho imaginado, sonhado, construído pelos próprios desejos. Mas os filhos reais não são personagens das nossas fantasias. Eles têm gostos, necessidades e formas de existir que nem sempre correspondem ao que esperávamos. Amar um filho é também suportar esse encontro com a alteridade. É abrir espaço para conhecer quem ele é, em vez de apenas tentar transformá-lo naquilo que gostaríamos que fosse.
Talvez por isso a escuta seja uma das formas mais profundas de cuidado. Porque ouvir uma criança é reconhecer sua existência como sujeito. É permitir que ela participe da construção da própria história. Sem essa escuta, existe o risco de fazermos muito por ela, sem necessariamente estarmos com ela.
Quem teria coragem de fazer uma pergunta simples ao próprio filho: Você prefere ganhar um novo boneco do Homem-Aranha ou passar um dia inteiro comigo?
A resposta talvez nos surpreendesse. As crianças costumam pedir presença muito antes de pedir presentes. Mas nem sempre conseguimos ouvi-las. E quando não ouvimos, corremos o risco de transmitir uma mensagem silenciosa: as coisas podem substituir os vínculos. Sem perceber, ensinamos que a falta pode ser preenchida por objetos. Que a tristeza pode ser resolvida por compras. Que a ausência pode ser compensada por presentes.
Só que a psicanálise nos ensina algo fundamental: os objetos têm valor, mas não ocupam o lugar das relações. Um brinquedo pode oferecer alegria. Mas não oferece reconhecimento. Pode entreter. Mas não acolhe. Pode distrair. Mas não ama.
Quando uma criança perde um objeto muito importante, muitas vezes sua dor parece desproporcional aos olhos dos adultos. Talvez porque não esteja chorando apenas pelo brinquedo perdido. Talvez esteja chorando também por tudo aquilo que aquele objeto representava.
Em alguns casos, o brinquedo se transforma numa tentativa de manter por perto uma presença que faltou. Como se, simbolicamente, perder o objeto significasse perder novamente alguém importante. Por isso, a questão nunca foi ser contra os presentes ou contra o conforto material.
A questão é lembrar que o ter não substitui o ser. Nenhum brinquedo substitui um abraço. Nenhuma tecnologia substitui uma conversa. Nenhum presente substitui a experiência de se sentir importante para alguém.
Talvez a grande armadilha da sociedade contemporânea seja nos fazer acreditar que o amor pode ser medido pelo que compramos, quando, na verdade, ele continua sendo medido pelo que compartilhamos.
Ao final, a pergunta que fica não é quanto estamos dando aos nossos filhos. Mas quanto de nós mesmos eles estão conseguindo receber.
Porque um ser humano só se torna humano no contato com outros seres humanos. Somos seres de afeto, vínculo e desejo. É no encontro com o outro que aprendemos a existir, a amar e a construir sentido para a vida.
A tecnologia continuará avançando. Os recursos serão cada vez mais sofisticados. Os brinquedos serão mais inteligentes. As telas mais atraentes.
Mas existe algo que nenhuma inovação será capaz de substituir: A presença de um ser humano cuidando de outro ser humano.
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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/
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