Leia a coluna da semana (05/10/2026):
Eu quero para o outro o que eu tive?
Por Juliana Ramiro
Quero falar sobre eleições sem falar sobre eleições. Quero falar sobre escolhas.
O psicanalista Donald Winnicott nos apresentou o conceito de mãe suficientemente boa: aquela que oferece ao bebê cuidado, proteção e sustentação, mas que não precisa (e nem deve) ser perfeita. O “suficientemente” importa. Há cuidado, mas também há falta. Há presença, mas também frustração. E é nesse equilíbrio que a criança começa a perceber que existe um mundo para além dela.
Quando saímos demais desse suficiente, para um lado ou para o outro, algo pode adoecer na maneira como nos relacionamos conosco e com os outros. Quem pôde experimentar um cuidado suficientemente bom talvez carregue uma aprendizagem importante: receber não significa que o outro precise ficar sem.
Eu tive. Foi bom. Reconheço o valor disso. E posso querer que você tenha também. Parece simples, mas não é.
Há quem tenha crescido em um mundo excessivamente organizado ao redor dos próprios desejos. Nesse extremo, reconhecer o outro pode ser difícil. Importa o que eu quero, o que eu conquistei, o que eu preciso. A alteridade fica prejudicada porque qualquer movimento em direção ao outro parece ameaçar aquilo que é meu.
Mas existe também o extremo de quem teve de menos. Faltou cuidado, proteção, segurança, oportunidade. E a falta também deixa marcas.
Algumas pessoas conseguem olhar para a própria história e pensar: “eu não tive e não quero que ninguém passe pelo que passei”. Outras constroem uma defesa diferente: “eu não tive. Por que você deveria ter?” Talvez porque reconhecer o valor do cuidado seja também reconhecer o tamanho daquilo que nos faltou.
Se precisei sobreviver sozinho, posso transformar necessidade em virtude. Posso dizer que ninguém me deu nada, que consegui por mérito próprio, que cada um deve lutar pelo que é seu. Assim, não preciso entrar em contato com uma pergunta muito mais dolorosa: por que ninguém cuidou de mim?
É claro que não existe uma relação direta entre infância e escolha política. A psicanálise não serve para diagnosticar eleitores. Mas pode nos ajudar a pensar sobre aquilo que nossas escolhas revelam da nossa relação com o outro.
O que sentimos quando alguém recebe algo que nós não tivemos? “Que bom que agora existe”? Ou: “Se eu não tive, também não precisa ter”?
Nas eleições, assim como na clínica, a maioria das vezes são nossas crianças que se mobilizam e querem falar de seus sofrimentos. E, em um país atravessado por tamanha desigualdade, talvez estejamos um passo atrás da discussão sobre escolhas. Para muitas famílias, falar em um ambiente suficientemente bom é quase um luxo quando falta comida, moradia, saúde, escola, segurança e tempo para cuidar.
Não basta pedir que as pessoas cuidem melhor. É preciso construir condições para que possam cuidar e ser cuidadas. Talvez uma sociedade suficientemente boa comece justamente aí: quando conseguimos reconhecer que aquilo que nos faltou não precisa continuar faltando ao outro.
Porque cuidado não deveria ser prêmio. Direito não deveria depender de sorte. E a minha ferida não precisa se transformar no destino de mais ninguém.
Te convido a refletir mais sobre este e outros temas acompanhando os episódios do Psi Por Aí, disponíveis no YouTube e no Spotify. E claro, siga também o Psi Por Aí nas redes sociais. Aceito sugestões de temas! Até a próxima semana.
Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/
Veja mais artigos do nosso blog:
Crise de Pânico – https://amepsionline.com.br/crise-panico-onde-tudo-comecou/
Manifestações da Natureza e nosso Psiquismo – https://amepsionline.com.br/manifestacoes-natureza-mexem-psiquismo/
Acompanhe nas redes sociais:
https://www.instagram.com/podcastpsiporai
https://www.facebook.com/profile.php?id=61558406494094
Assista o Psi Por Aí no Youtube:
https://www.youtube.com/@PsiPorA%C3%AD24
Ouça o Psi Por Aí no Spotify:
https://open.spotify.com/episode/42HS5YLOqi5mCx1Rd4UU7v?si=0FlCxXYXSPeCzH9CeJBG7A
Este conteúdo tem o apoio de:
Litoral na Rede – https://litoralnarede.com.br/
Sindifars – https://sindifars.com.br/
Espaço Âme – https://www.instagram.com/espacoame.rs/

