PODCASTQuando o diagnóstico chega antes da criança

Leia a coluna da semana (21/9/2026):

Quando o diagnóstico chega antes da criança

Por Juliana Ramiro

Receber o diagnóstico de um filho pode provocar sentimentos contraditórios. Para muitas famílias, há alívio por finalmente encontrar uma explicação para comportamentos, dificuldades e diferenças que já vinham sendo percebidas. Ao mesmo tempo, surgem medo, insegurança e uma série de perguntas sobre o futuro. O diagnóstico pode organizar caminhos, garantir direitos e orientar cuidados necessários. O problema começa quando ele deixa de ser uma ferramenta para compreender a criança e passa a ser uma definição de quem ela é.

No meu livro O que eu queria que você soubesse, publicado pela Editora Lumina em dezembro do ano passado, escrevo sobre isso a partir da voz de uma criança que percebe que, depois do laudo, os pais começaram a olhá-la de outro jeito. Tudo o que ela faz parece passar pelo diagnóstico. Se fala alto, é por causa dele. Se fica quieta, também. Se encontra uma dificuldade, os adultos já imaginam que não conseguirá. É como se, de repente, o laudo chegasse antes da própria criança.

E talvez uma das frases mais importantes desse capítulo seja: “Eu não quero ser consertado. Quero ser compreendido.”

Há uma diferença profunda entre oferecer a uma criança os recursos de que ela precisa e tratá-la como alguém que precisa ser corrigido para se aproximar daquilo que consideramos normal. Um diagnóstico pode explicar determinados comportamentos, orientar intervenções e indicar necessidades específicas. Mas ele não consegue dizer tudo sobre um sujeito e muito menos prever tudo aquilo que uma criança poderá vir a construir.

A psicanálise nos ensina a desconfiar das definições que pretendem dar conta de alguém por inteiro. A psicanalista Françoise Dolto insistia que a criança é um sujeito e, como tal, precisa ser escutada. Isso significa reconhecer que existe ali alguém que sente, percebe e também constrói uma imagem de si a partir das palavras e dos olhares dos adultos.

Por isso, precisamos prestar atenção ao modo como falamos sobre uma criança depois de um diagnóstico. Crianças escutam quando dizemos que elas “não conseguem”, “não entendem” ou “não vão conseguir”. Percebem quando passam a ser tratadas como frágeis demais para tentar. E aquilo que deveria ajudá-las a encontrar recursos para crescer pode, sem que percebamos, começar a limitar suas possibilidades.

Isso não significa negar dificuldades. Há crianças que precisam de muito suporte, adaptações, acompanhamento especializado e cuidados que podem acompanhá-las por toda a vida. Reconhecer necessidades reais também é uma forma de respeito. O que precisamos evitar é transformar uma dificuldade em identidade e uma condição em destino.

Talvez o desafio para pais, cuidadores, escolas e profissionais seja sustentar duas verdades ao mesmo tempo: o diagnóstico importa e a criança é muito maior do que ele.

Antes de qualquer sigla, classificação ou laudo, existe alguém que brinca, deseja, aprende, se frustra, surpreende e encontra maneiras próprias de estar no mundo. O papel pode nos ajudar a compreender uma parte dessa história. Mas não deveria ter o poder de escrever o seu final.

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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/

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