PODCASTO voto das mulheres mudou. E isso muda a democracia.

Leia a coluna da semana (27/7/2026):

O voto das mulheres mudou. E isso muda a democracia.

Por Juliana Ramiro

Durante muito tempo, as mulheres foram impedidas de participar das decisões políticas. Não votavam porque eram consideradas incapazes de opinar sobre os rumos da sociedade. Quando finalmente conquistaram esse direito, em 1932, ainda havia uma expectativa silenciosa: a de que o voto feminino seria apenas uma extensão da vontade masculina. Votaria no candidato do pai, do marido, da família.

Mas a história mudou. E mudou porque as mulheres mudaram sua relação com a política. Ou, talvez mais precisamente, compreenderam que a política nunca deixou de interferir em suas vidas.

Nas últimas eleições, um fenômeno tem chamado a atenção de cientistas políticos e analistas: o voto feminino passou a ser apontado como decisivo. Não por acaso. As mulheres deixaram de votar por lealdade familiar e passaram a votar a partir da própria experiência cotidiana. Perceberam que a gestão pública não é um tema distante. Ela determina a qualidade da escola dos filhos, o acesso à saúde, a existência de creches, a segurança nas ruas, as oportunidades de trabalho e a possibilidade de viver com dignidade.

E os dados confirmam essa percepção. Quando a economia entra em crise, as mulheres costumam ser as primeiras a perder seus empregos. Quando faltam políticas públicas para a infância, são elas que, na maioria das vezes, interrompem carreiras ou acumulam jornadas para cuidar dos filhos. Quando o sistema de saúde falha, quando a educação pública é insuficiente ou quando a segurança desaparece, o impacto recai de forma desproporcional sobre elas.

Ainda vivemos em uma sociedade que atribui às mulheres a maior parte da responsabilidade pelos cuidados familiares. Isso não deveria ser naturalizado, mas continua sendo uma realidade. Basta observar o crescente número de famílias chefiadas por mulheres e de crianças criadas sem a presença cotidiana do pai. Nesses contextos, a presença, ou a ausência, do Estado deixa de ser uma discussão ideológica e passa a ser uma questão concreta de sobrevivência.

A psicanálise nos ensina que tornar-se sujeito implica reconhecer-se como alguém capaz de desejar, escolher e responder por suas decisões. Durante séculos, o lugar destinado às mulheres foi o da obediência. O desejo feminino era frequentemente silenciado em nome da tradição, da moral ou da autoridade masculina. O voto representa justamente o contrário. É a possibilidade de ocupar um lugar de fala e de decisão na vida coletiva.

Quando uma mulher vota a partir de sua própria leitura da realidade, ela rompe com uma lógica histórica de tutela. Deixa de ser representada pela voz de outro e passa a afirmar a sua.

Isso não significa que todas as mulheres pensem igual, nem que devam votar nos mesmos candidatos. A democracia pressupõe justamente a pluralidade de ideias. O que mudou foi algo muito mais profundo: o reconhecimento de que a política diz respeito à própria vida e que a escolha nas urnas pode transformar as condições em que se vive.

O voto feminino ganhou importância porque as mulheres compreenderam que seus direitos não são garantidos apenas pela boa vontade de quem governa. Eles dependem de políticas públicas, de instituições que funcionem e de uma sociedade que reconheça a cidadania feminina como algo inegociável.

A democracia se fortalece quando mais pessoas participam conscientemente dela. E talvez uma das mudanças mais significativas do nosso tempo seja justamente esta: mulheres que deixaram de votar por influência e passaram a votar por convicção.

Isso muda eleições. Mas, sobretudo, muda a história.

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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/

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