PODCASTMães reais, culpas reais e a urgência de uma aldeia

Leia a coluna da semana (01/06/2026):

Mães reais, culpas reais e a urgência de uma aldeia

Por Juliana Ramiro

Na última semana, participei do evento Mães Plurais — acolhendo as diversas formas de maternar, promovido pela Comissão de Direito de Família e Sucessões da OAB Subseção Tramandaí, em parceria com a Secretaria Municipal de Políticas Públicas para Mulheres. Foi uma manhã de brunch, conversa e escuta sobre maternidade, dessas conversas que atravessam porque falam da vida como ela realmente é.

 

Fui convidada para responder quatro perguntas sobre maternidade e psicanálise. E, enquanto revisava minhas respostas depois do evento, fiquei pensando como todas elas, no fundo, falavam sobre a mesma coisa: a dificuldade contemporânea de sustentar o humano em uma sociedade que exige perfeição justamente de quem mais precisa de acolhimento.

 

A primeira pergunta foi:

De que forma a psicanálise te auxilia na maternidade?

A psicanálise é, antes de tudo, um estudo profundo sobre o humano. E, no fundo, quando maternamos alguém, nosso maior compromisso é justamente ajudar um ser humano a tornar-se humano.

Estudar psicanálise me ajuda a compreender o que realmente está em jogo na relação com a minha filha: o que ela precisa de mim, como os vínculos se constroem e o quanto essas experiências deixam marcas para o resto da vida.

Entender o nosso lugar na vida do outro muda completamente o cotidiano. A maternidade deixa de ser apenas uma sequência de tarefas e passa a ser também uma responsabilidade afetiva e subjetiva muito profunda.

Mas existe ainda um outro aspecto importante: os próprios atendimentos clínicos. Escutar histórias, dores, repetições e sofrimentos me mostra diariamente muitos caminhos que deram errado, e isso também é aprendizado. A clínica ensina muito sobre aquilo que faltou, sobre vínculos fragilizados, abandonos emocionais, excessos, ausências e marcas que permanecem por décadas.

Além disso, a formação do psicanalista exige um tripé bastante rigoroso: teoria, supervisão e análise pessoal. Foram mais de dez anos de análise. E, desses anos, cinco foram gestando minha filha fora da barriga, no meu desejo, na minha vida, na construção subjetiva do lugar que ela ocuparia em mim antes mesmo de nascer. A maternidade começa muito antes do parto.

 

Existe uma cobrança muito grande para mães serem emocionalmente equilibradas o tempo todo. O que tu entende como verdadeiramente possível na prática?

Quando atendo mães, ou mães de pacientes, gosto muito de lembrar daquela orientação dada nos aviões em situações de emergência: primeiro coloque a máscara em você, depois ajude quem está ao seu lado.

Isso diz muito sobre maternidade.

Sim, uma mãe emocionalmente minimamente sustentada tende a conseguir ajudar melhor no desenvolvimento emocional do filho. A criança também é sintoma do meio em que vive. E aqui “meio” não significa apenas a mãe. Winnicott fala da importância da mãe suficientemente boa, mas também de um ambiente suficientemente bom.

Se todas as pessoas que assumem a tarefa de cuidar de uma criança estivessem emocionalmente amparadas, provavelmente teríamos uma sociedade menos adoecida.

Mas isso não é uma questão de culpa individual. Quando uma mãe falha, nós todas e todos falhamos junto, porque criar uma criança nunca deveria ser tarefa solitária.

É preciso uma aldeia para sustentar uma infância.

 

Tu atende muitas mães? O que tu vê como mais desafiador na maternidade?

Minha resposta foi imediata: a culpa.

A maternidade contemporânea é atravessada por uma exigência impossível. Espera-se que a mulher esteja plenamente disponível para o filho, emocionalmente equilibrada, profissionalmente produtiva, fisicamente bem, socialmente ativa e ainda feliz o tempo todo.

É uma conta que não fecha. Muitas mães vivem tentando alcançar uma ideia idealizada de maternidade e sentem que estão falhando constantemente. A culpa talvez seja hoje uma das experiências psíquicas mais presentes na vida materna. E ela cresce exatamente no espaço entre a realidade possível e o ideal impossível que nos vendem diariamente.

 

Pra ti, como é possível na prática conciliar carreira e maternidade?

E eu nem sei se a palavra é exatamente “conciliar”. Acho que, para mim, passa mais por responsabilizar-me pelas minhas escolhas e compreender prioridades em determinados momentos da vida.

Os primeiros anos de uma criança são fundamentais para sua constituição emocional. Estar presente exige tempo, disponibilidade e renúncias. E eu, junto com a minha rede, preciso reconhecer que isso também é trabalho.

Na Argentina, inclusive, o cuidado integral com os filhos chegou a ser reconhecido como trabalho. Porque é. E é um trabalho importantíssimo.

No mercado profissional, somos substituíveis. Para um filho, não somos. Ali, ocupamos um lugar único. Isso não significa abandonar carreira ou desejos pessoais, mas compreender que certas fases exigem mais presença e reorganização da vida.

Claro que, na prática, quase todas nós estamos correndo para todos os lados e carregando uma culpa enorme de não sermos boas o bastante em nada. Mas gosto muito de lembrar Winnicott quando fala da mãe suficientemente boa.

O desafio não é ser perfeita.  É ser suficientemente presente, suficientemente disponível, suficientemente humana.

Participar do Mães Plurais reforçou algo em que acredito profundamente: talvez uma das coisas mais importantes que possamos oferecer às mães seja justamente espaço de escuta. Um espaço onde elas possam existir para além da idealização, da performance e da culpa.

Porque nenhuma infância se sustenta sozinha. E nenhuma mãe deveria precisar sustentar tudo sozinha também.

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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/

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