PODCASTO medo não educa: ele apenas adestra (ou nem isso!)

Leia a coluna da semana (25/05/2026):

O medo não educa: ele apenas adestra (ou nem isso!)

Por Juliana Ramiro

Há uma diferença profunda entre um sujeito que respeita e um sujeito que apenas teme. Embora muitas famílias, escolas e instituições ainda insistam na educação pelo medo, a psicanálise nos mostra que o medo não produz ética, produz submissão. E toda submissão guarda, silenciosamente, o desejo de transgressão.

Freud já apontava isso em O Futuro de uma Ilusão, ao analisar a função da religião na organização da civilização. Para ele, muitos sistemas religiosos sustentam-se menos pelo amor e mais pelo temor: teme-se a punição divina, o castigo, a culpa. Deus aparece como uma espécie de pai severo que vigia, pune e depois absolve. E talvez esteja aí uma das maiores contradições humanas: há sujeitos que procuram justamente essa lógica para continuar sustentando seus próprios impulsos perversos. Pecam, arrependem-se, pedem perdão e recomeçam o ciclo.

Não por acaso, tantos escândalos envolvendo abusos e violências atravessam justamente homens que publicamente se apresentam como “homens de fé”, defensores da moral, frequentadores assíduos de igrejas e templos. Isso não significa que a religião produza perversão. Significa apenas que a moral sustentada exclusivamente pelo medo não transforma ninguém. Ela apenas controla comportamentos enquanto existe vigilância. Porque o sujeito que só respeita pelo medo pensa assim: “se meu agressor não estiver olhando, eu posso fazer”.

O respeito verdadeiro nasce de outro lugar. O ser humano só respeita aquilo que ama, admira e reconhece como valioso. A educação não acontece pela ameaça constante, mas pelo vínculo. Pelo exemplo. Pelo afeto. Pelo olhar.

E amar a si próprio, diferentemente do que muitos discursos rasos vendem hoje, não é algo simples. Um sujeito verdadeiramente amado aprende, pouco a pouco, a suportar frustrações sem desmoronar. Aprende que ouvir um “não” não significa ser rejeitado em sua existência. Aprende que limites não são abandono.

Por isso, a educação pelo amor não significa ausência de regras. Significa que as regras fazem sentido dentro de um laço afetivo seguro. O sujeito amado é capaz de renunciar ao próprio desejo em alguns momentos para acomodar-se ao desejo do outro. Não por medo de punição, mas porque reconhece a existência do outro como legítima. Há empatia onde houve acolhimento.

Já aquele que cresce sendo constantemente mal olhado, mal desejado ou emocionalmente negligenciado tende a viver os limites como humilhação. Pais excessivamente narcísicos, emocionalmente ausentes ou ocupados demais muitas vezes criam filhos profundamente frágeis, ainda que funcionalmente “bem-sucedidos”. Filhos que carregam um vazio afetivo tão intenso que passam a acreditar que o mundo lhes deve algo. E então os vínculos deixam de ser encontros para se tornarem cobranças.

São sujeitos que atravessam relações buscando alguém que pague essa dívida invisível: reconhecimento, atenção, reparação, amor. Mas aquilo que não foi simbolizado retorna muitas vezes como violência, manipulação, abuso ou incapacidade de sustentar laços duradouros.

Só sabe fazer laço quem, em algum momento da vida, foi enlaçado. Ou então quem teve coragem de revisitar as próprias feridas através de um processo de análise, autoanálise e responsabilização subjetiva.

O médico e autor canadense Gabor Maté afirma em uma de suas obras que chega um momento em que os pais precisam fazer uma escolha: amar ou educar seus filhos. E talvez essa frase provoque justamente porque fomos ensinados a acreditar que educar é corrigir, punir, controlar e endurecer. Mas amar verdadeiramente uma criança já é, por si só, uma forma profunda de educação.

Porque o amor consistente, seguro e presente ensina limites sem humilhação, ensina frustração sem abandono e ensina respeito sem violência. O sujeito que se sente amado não deixa de errar, mas desenvolve recursos internos para reconhecer o outro, suportar o “não” e responsabilizar-se pelos próprios atos. Já a educação baseada apenas na repressão produz obediência temporária, mas dificilmente produz ética.

Um sujeito que se sente profundamente amado é capaz de não fazer. Não porque teme apanhar, perder algo ou ser condenado. Mas porque existe nele uma inscrição afetiva que sustenta a ética.

Já aquele que cresce ouvindo “não faz”, “não senta assim”, “não fala isso”, “não seja desse jeito”, sem nunca experimentar acolhimento verdadeiro, começa lentamente a acreditar que sua própria existência é inadequada. Depois, indesejada. E quando uma criança sente que sua existência incomoda, algo dentro dela se apaga.

Talvez seja justamente isso que vemos hoje em tantos sujeitos violentos, intolerantes e incapazes de reconhecer o outro: adultos que nunca aprenderam a amar porque nunca se sentiram verdadeiramente amados.

Freud escreveu certa vez que “a voz do intelecto é suave, mas não descansa enquanto não consegue uma audiência”. Talvez o afeto também seja assim. Silencioso. Persistente. Estruturante.

O medo até pode produzir obediência imediata. Mas só o amor é capaz de produzir humanidade.

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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/

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