Leia a coluna da semana (02/03/2026):
Entre mochilas e notificações: o que começa quando as aulas recomeçam
Por Juliana Ramiro
O início das aulas é sempre um rito de passagem. Mochilas novas, cadernos ainda intactos, expectativas silenciosas. Para as crianças, é um retorno ao convívio, às descobertas, aos desafios. Para os pais, é a reorganização da rotina: horários, tarefas, compromissos.
Mas há algo que também recomeça, mesmo que ninguém perceba: a disputa pela atenção. Entre o uniforme e o celular, entre o dever de casa e as notificações, uma pergunta precisa ser feita com honestidade: onde está a nossa presença quando a escola começa?
A escola não é só conteúdo, é experiência emocional
Voltar às aulas não é apenas retomar matérias. É reencontrar vínculos, lidar com frustrações, testar pertencimentos, enfrentar inseguranças. Cada início de ano mobiliza ansiedades — nas crianças e nos adultos.
A psicanálise nos ajuda a compreender isso. Freud já nos mostrava que toda mudança convoca rearranjos internos. Recomeçar ativa medos antigos: “vou dar conta?”, “vou ser aceito?”, “vou conseguir aprender?”. A criança pode não nomear essas perguntas, mas ela as sente. É nesse momento que a presença dos pais ganha uma dimensão decisiva.
Não se trata de controlar cada detalhe da rotina escolar. Trata-se de oferecer sustentação emocional, aquilo que Winnicott chamou de holding: o ambiente que sustenta, acolhe e organiza a experiência interna da criança. Quando a escola começa, a criança precisa saber que há um adulto interessado, não apenas nas notas, mas no que ela vive.
Telas: o ruído que atravessa o vínculo
As telas não desaparecerão da nossa vida. Elas organizam trabalho, comunicação, informação. O problema não é a existência delas, é o lugar que ocupam.
Quando o filho tenta contar como foi o primeiro dia e recebe como resposta um “só um minutinho” enquanto o adulto desliza o dedo pela tela, algo se interrompe. Pode parecer pequeno. Mas, para quem está falando, é grande.
A criança se reconhece no olhar de quem a escuta. Se esse olhar está constantemente desviado, a mensagem que pode ser sentida, ainda que não dita, é: “isso não é tão importante”.
E o que acontece quando, repetidamente, a criança encontra um adulto distraído?
Perde-se a oportunidade de:
- perceber dificuldades precoces;
- acompanhar a construção da autonomia;
- fortalecer a confiança;
- legitimar emoções.
A tecnologia não substitui o vínculo. Ela pode atravessá-lo.
Reduzir as telas no início do ano letivo não é apenas uma questão de desempenho escolar. É uma escolha relacional.
É garantir tempo para:
- perguntar como foi o dia;
- ouvir sobre as amizades;
- olhar os cadernos;
- revisar materiais;
- ajudar nas tarefas;
- perceber sinais de dificuldade ou desânimo.
Quando os pais demonstram interesse real pela vida escolar, a criança entende que aquilo tem valor. E mais: sente que não está sozinha nesse percurso. A família, então, deixa de ocupar um lugar periférico e passa a jogar um papel positivo e coletivo com a escola. Não é sobre perfeição. Nenhum pai ou mãe estará disponível o tempo todo. A vida é exigente. O trabalho cobra. O cansaço existe. Mas presença não é totalidade, é consistência.
É desligar o celular por alguns minutos para ouvir com atenção. É criar um ritual de conversa antes de dormir. É mostrar que o que acontece na escola importa porque quem vive aquilo importa.
No início das aulas, compramos materiais, organizamos agendas, ajustamos horários. Talvez seja o momento de ajustar também algo menos visível: a qualidade da nossa presença.
Porque, entre mochilas e notificações, a infância continua precisando do mesmo de sempre: ser vista, escutada e considerada. E isso nenhuma tecnologia pode substituir.
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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/
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