Leia a coluna da semana (09/02/2026):
Quando o choro vira excesso e o adulto vira silêncio
Por Juliana Ramiro
Há um equívoco muito comum, e profundamente violento, ainda que cotidiano, na forma como lidamos com o choro das crianças. Costumamos medir a dor infantil com a régua adulta: se não é “grave”, se é “só um papel”, se “logo passa”, então não haveria motivo para tanto sentimento. Mas quem decide o tamanho da dor não é quem observa de fora. É quem sente.
No capítulo “Quando eu choro e vocês dizem que não é motivo”, do meu livro O que eu queria que você soubesse, parto justamente dessa cena banal — um desenho rasgado — para falar de algo muito maior: a solidão emocional que se instala quando a criança percebe que seu sofrimento não encontra testemunha. O papel rasga, mas o que se rompe, muitas vezes, é a possibilidade de ser levado a sério.
A infância não opera pela lógica da proporção racional. A criança ainda não separa completamente o mundo externo do mundo interno. O que acontece fora reverbera dentro com intensidade total. Por isso, um brinquedo quebrado pode ser vivido como perda, um desenho rasgado como colapso, um “não” como abandono. Quando o adulto responde com frases como “isso não é nada”, “para de chorar” ou “não foi motivo”, não está ensinando maturidade, está ensinando silenciamento. A criança aprende, pouco a pouco, que sentir demais é um erro. Que expressar dor é exagero. Que, para continuar pertencendo, talvez seja melhor calar.
O psicanalista Donald Winnicott já nos alertava que a criança precisa de um ambiente suficientemente bom, capaz de sustentar emoções que ela ainda não consegue pensar. Não se trata de concordar com tudo, nem de inflar o sofrimento, mas de reconhecer sua existência. Nomear. Conter. Estar. Quando isso não acontece, o choro deixa de ser apenas uma reação e passa a carregar algo a mais: a experiência de não ser compreendido.
Outro psicanalista importante, Sándor Ferenczi, foi ainda mais direto ao afirmar que o trauma não está apenas no que acontece, mas na solidão diante do que se sente. A dor ignorada não diminui; ela se amplia. A criança não sofre só pelo acontecimento, mas pela ausência de alguém que diga: “eu vejo você, eu acredito em você”.
Hoje, além da desautorização emocional, enfrentamos um outro atravessamento importante: a pressa. O choro da criança interrompe rotinas, agendas, telas, produtividade. Ele exige presença e presença virou artigo raro. Muitas vezes, o “não é motivo” encobre algo ainda mais honesto, embora difícil de admitir: “eu não tenho tempo para sentir isso com você”. Mas nenhuma criança aprende a regular emoções sozinha. A autorregulação nasce, primeiro, da corregulação. De alguém que fica. Que sustenta. Que não apressa o fim do choro, mas acompanha o seu percurso.
Validar o sentimento não significa reforçar a dor nem criar crianças frágeis. Pelo contrário: crianças que são escutadas aprendem que sentir não destrói, que a dor passa, que existe um mundo que suporta suas lágrimas. Quando o adulto diz “eu sei que você ficou triste, estou aqui”, algo se reorganiza. O choro já não precisa gritar tanto. Ele encontra repouso no vínculo.
Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/
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