Leia a coluna da semana (12/01/2026):
O perigo de se acostumar ao lugar errado
Por Juliana Ramiro
Há algo profundamente humano em tentar se adaptar. Desde cedo aprendemos que, para pertencer, é preciso ceder, flexibilizar, suportar. Mas há contextos em que essa lógica não apenas falha, ela adoece. Especialmente quando falamos de relações pouco saudáveis, ou “tóxicas”, para usar um termo tão repetido quanto, muitas vezes, esvaziado de sentido.
Faz parte do jogo de quem agride desqualificar o outro. Minar sua confiança, colocar em dúvida sua percepção, inverter responsabilidades. No consultório, escuto com frequência frases que doem mais do que aparentam: “Acho que sou eu o problema”, “Eu sinto demais”, “Exagero”, “Não consigo me adaptar”. Na maioria das vezes, essas falas vêm de mulheres inseridas em relações marcadas pela violência, nem sempre física, quase sempre psicológica.
E aqui talvez venha o ponto mais incômodo deste texto: sim, em alguma medida, eu concordo com os agressores. Dentro de um cenário de violência, quem não se acostuma, quem não se adapta, quem não se cala… é mesmo visto como o problema. Porque questiona, porque sente, porque não normaliza o que jamais deveria ser normal.
Este texto não é, necessariamente, sobre ir embora. É sobre algo que antecede qualquer decisão prática: compreender que não é um problema ser o problema. Ao contrário. O risco maior está em aceitar o lugar de quem erra sempre, de quem precisa se moldar constantemente para caber em um espaço que machuca. É assim que, pouco a pouco, vamos nos acostumando com a violência, com a culpa, com a ideia de que amar exige suportar o insuportável.
Do ponto de vista psicanalítico, sabemos o quanto o sujeito pode se adaptar ao sofrimento quando acredita que não há alternativa. Freud já nos alertava que o mal-estar pode se tornar estrutural quando confundimos laço com submissão. A violência que se repete tende a ser naturalizada, incorporada como parte da vida, e é aí que o perigo se instala.
Podemos estar no pior lugar do mundo, mas há algo fundamental: saber, com clareza, que aquele não é o nosso lugar. Essa certeza é um ato de resistência. Em um cenário de tantas violências, de tantos feminicídios, o que não podemos — jamais — é nos acostumar. Aceitar. Silenciar. Normalizar.
Não se trata de adaptação. Trata-se de sobrevivência psíquica. E esta começa quando recusamos ocupar o lugar errado.
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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/
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