PODCASTQuando o descanso cansa: o desejo de rotina no meio das férias

Leia a coluna da semana (05/01/2026):

Quando o descanso cansa: o desejo de rotina no meio das férias

Por Juliana Ramiro

Final de ano costuma vir carregado de promessas boas: descanso, mais tempo com a família, encontros, lazer, passeios, uma pausa merecida depois de tantos meses de exigências. E, de fato, há algo de muito potente nesse período. Dormir um pouco mais, sair da rigidez dos horários, flexibilizar obrigações, permitir-se viver outros ritmos.

Mas, em meio a tudo isso, uma pergunta aparece, às vezes com culpa, às vezes em silêncio: “Mas tá tudo bem se já estou cansado? E quero voltar para a rotina?”

Sim. Está tudo bem. E é mais comum do que se imagina.

A psicanálise nos ajuda a compreender que a rotina não é inimiga do prazer. Pelo contrário. A rotina organiza o psiquismo, dá previsibilidade ao dia, reduz a ansiedade e cria contornos para o desejo. Quando tudo é excesso, estímulo, barulho e improviso, o que parece liberdade pode rapidamente se transformar em cansaço psíquico.

Com as crianças, isso é ainda mais evidente. A rotina é estruturante: horários, repetições, previsibilidade. É isso que ajuda a criança a se sentir segura no mundo. Mas com adultos não é tão diferente assim. Também precisamos de alguma constância para nos organizar internamente. O corpo até relaxa nas férias, mas o psiquismo pede algum chão.

Por isso, é possível, e legítimo, viver férias ótimas e, ao mesmo tempo, desejar voltar para casa, para a rotina, para o que é conhecido. Não há contradição aí.

A casa, inclusive, ocupa um lugar simbólico muito profundo. Nossa mãe foi nossa primeira casa. Foi ali que, idealmente, fomos acolhidos, protegidos, organizados. Quando algo sai muito do eixo, quando o ambiente externo se torna excessivo ou caótico, o desejo de estar em casa — literal ou simbolicamente — aumenta. Queremos nos recolher, nos conter, nos recompor.

Aqui no litoral, esse sentimento ganha contornos ainda mais intensos. De um dia para o outro, a população se multiplica. Ruas cheias, barulho, filas para tudo. Trajetos que antes duravam dez minutos passam a levar uma hora. Restaurantes lotados, dificuldade para estacionar, supermercado e farmácia cheios. O cotidiano fica atravessado por um excesso constante de estímulos e de gente. E, com isso, cresce também a vontade de estar apenas em casa, de voltar ao simples, ao previsível, ao nosso ritmo.

O que podemos pensar sobre tudo isso? Que passa. Esse período passa. O ano, de fato, começa. Os excessos ficam para trás. E, se conseguirmos nos oferecer um pouco de paz, alguma rotina possível, pequenos rituais cotidianos, o cansaço também se reorganiza.

Talvez o convite seja este: não lutar contra o desejo de rotina, mas escutá-lo. Ele não invalida o descanso, nem o prazer das férias. Ele apenas sinaliza uma necessidade psíquica de contorno, de casa, de cuidado.

Te convido a refletir mais sobre este e outros temas acompanhando os episódios do Psi Por Aí, disponíveis no YouTube e no Spotify. E claro, siga também o Psi Por Aí nas redes sociais. Aceito sugestões de temas! Até a próxima semana.

Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/

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