PODCASTO Filho de Mil Homens, o amor e aquilo que importa

Leia a coluna da semana (15/12/2025):

O Filho de Mil Homens, o amor e aquilo que importa

Por Juliana Ramiro

O filme O Filho de Mil Homens, lançado recentemente na Netflix e baseado no livro de Valter Hugo Mãe, é uma dessas obras que chegam mansamente, mas chacoalham fundo. A história do pescador Crisóstomo e do menino Camilo é, antes de tudo, um convite a repensar o amor, não o amor romântico e idealizado, nem o amor como performance social, mas o amor que se faz com respeito, convivência e reconhecimento. Aquele amor que, ao encontrar o outro, encontra também um modo mais simples e mais verdadeiro de existir.

Logo no livro, Valter Hugo Mãe nos presenteia com uma lição que atravessa o filme:
“Crisóstomo percebia que o que aprendera com Camilo era isto: sermos todos irmãos.”

É desse lugar que a narrativa se expande. Um pescador solitário, um menino órfão, uma mulher que não se sente suficiente para ser amada, um homem que não se reconhece na vida que tem… vínculos improváveis aos olhos de quem ainda acredita que família é apenas aquilo que cabe no molde. Mas afinal, improváveis para quem? Para quem defende a família aparente, a família padrão, aquela que parece perfeita por fora e sufoca por dentro?

O filme devolve a pergunta: será que o amor só acontece no padrão? A trama responde com um “não” tão bonito quanto firme. As escolhas desses personagens mostram que família é encontro, é construção, é coragem de amparar e de se deixar amparar. Não é um certificado social, é a ética do cuidado.

Os (pre)conceitos sobre o que é aceito ou não, o que pode ou não pode, são fontes inesgotáveis de injustiça. Funcionam como cercas altas que delimitam quem “merece” ser feliz e quem deveria se envergonhar de existir. E isso não é apenas um problema político ou cultural, é também um sofrimento psíquico profundo.
Na clínica, encontramos cotidianamente pessoas que carregam esses padrões como se fossem verdades absolutas: o adolescente que não sai do quarto; a mulher que não se autoriza a viver um romance saudável; a mãe que se tornou refém de todos, menos de si mesma; homens e mulheres esmagados pela lógica do “mais, mais e mais”, sempre performando menos do que o ideal imaginário e, por isso, sentindo-se menos.

Esse exército silencioso de pessoas que acreditam não merecer o amor, nem de outros, nem de si mesmas, é, infelizmente, fruto direto da tirania dos padrões.
E é por isso que O Filho de Mil Homens é tão valioso: ele nos lembra que pertencimento não se força, se constrói. Que família não se decreta, se escolhe e acolhe. Que o amor não é uma moeda, é uma oferta.

Valter Hugo Mãe escreve com uma simplicidade que desarma. Uma simplicidade que, como literatura chama literatura, me fez lembrar de um pequeno poema de Mário Quintana, que diz tanto com tão pouco:

“Às vezes, como um velhinho cego,
procuramos a felicidade por toda parte
estando ela tão perto,
na ponta do nariz.”

A arte — seja o filme, o livro, a poesia — aparece aqui como esse gesto que nos devolve o essencial. Ajuda-nos a perceber que muito do que buscamos desesperadamente já está perto, mas os padrões, os ter-ques e as cobranças nos deixam cegos para isso. A arte nos tira pela mão e nos lembra que ainda podemos criar mundos possíveis apesar do peso do mundo real. E que, no fim das contas, somos todos irmãos, como aprendeu Crisóstomo, porque todos estamos tentando, do nosso jeito imperfeito, encontrar um lugar onde caibamos.

Este texto é uma indicação: veja o filme, leia o livro, busque a arte. Não como fuga, mas como resposta. Como reparo. Como forma de lembrar que a vida não precisa caber no padrão para poder caber em nós.

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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/

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