PODCASTFazer terapia é aprender a pensar os próprios pensamentos

Leia a coluna da semana (06/10/2025):

Fazer terapia é aprender a pensar os próprios pensamentos

Por Juliana Ramiro

“Mas afinal, o que é fazer terapia?”

Essa é uma pergunta que cedo ou tarde aparece nas conversas com quem começa um percurso analítico comigo, às vezes de forma direta, às vezes nas entrelinhas. E é bom que apareça, porque ela é parte do próprio trabalho.

Fazer análise é, antes de tudo, um processo de autoanálise. Desde Freud, pensadores da psicanálise se perguntam sobre o que realmente faz o processo acontecer. Nos primórdios, havia quem acreditasse que a frequência, quatro, cinco sessões por semana, era o elemento central para o mergulho no inconsciente. Hoje sabemos que essa visão é, além de elitista e pouco acessível, também limitada. A intensidade da análise não se mede em quantidade de encontros, mas na qualidade da escuta e, principalmente, da implicação do sujeito no seu próprio processo.

Costumo dizer aos meus pacientes que analisar-se é aprender a “pensar os pensamentos”, como dizia Bion. A sessão semanal se torna, para muitos, o único momento em que é possível parar e olhar para dentro, nos primeiros passos. É um treino de presença, um exercício de olhar-se e escutar-se. Nesse início, o analista tem o papel de acompanhar, sustentar e, em certa medida, provocar esse gesto de olhar para si.

O psicanalista Winnicott chamava de holding essa função de sustentação que o analista oferece: uma presença que acolhe as angústias sem tentar eliminá-las, que suporta o desconforto do crescimento. Mesmo em encontros breves, a análise oferece uma outra experiência de relação, sem chantagens, sem trocas de interesse, sem a pressa de resolver. Esse pequeno espaço de verdade pode parecer mínimo, mas é nele que se constroem novas formas de se relacionar com o mundo.

Gosto de pensar que o trabalho do analista é, ao mesmo tempo, muito importante e absolutamente insignificante. Importante, porque oferece um espaço de sustentação e escuta raros. Insignificante, porque sem o analisando, nada acontece. É o sujeito quem caminha, quem escolhe o percurso, quem coloca o pé na areia. O analista apenas acompanha: não puxa, não empurra, não dita o caminho.

Fazer análise é como caminhar à beira do mar. Às vezes o passo é firme, às vezes a onda derruba, mas é sempre o analisando quem caminha. E quando esse movimento passa a acontecer também fora da sessão, quando o sujeito começa a se escutar sozinho, é sinal de que o processo está vivo — a análise segue, todos os dias, dentro e fora do consultório.

Rubem Alves dizia sobre as escolas que há as que são gaiolas e as que são asas.

Com a psicanálise, para mim, é a mesma coisa.

E eu tento ser asas.

Te convido a refletir mais sobre este e outros temas acompanhando os episódios do Psi Por Aí, disponíveis no YouTube e no Spotify. E claro, siga também o Psi Por Aí nas redes sociais. Aceito sugestões de temas! Até a próxima semana.

Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/

Veja mais artigos do nosso blog:

Crise de Pânico – https://amepsionline.com.br/crise-panico-onde-tudo-comecou/
Manifestações da Natureza e nosso Psiquismo – https://amepsionline.com.br/manifestacoes-natureza-mexem-psiquismo/

Acompanhe nas redes sociais:
https://www.instagram.com/podcastpsiporai
https://www.facebook.com/profile.php?id=61558406494094

Assista o Psi Por Aí no Youtube:
https://www.youtube.com/@PsiPorA%C3%AD24

Ouça o Psi Por Aí no Spotify:
https://open.spotify.com/episode/42HS5YLOqi5mCx1Rd4UU7v?si=0FlCxXYXSPeCzH9CeJBG7A

Este conteúdo tem o apoio de:
Litoral na Rede – https://litoralnarede.com.br/
Sindifars – https://sindifars.com.br/
Espaço Âme – https://www.instagram.com/espacoame.rs/