PODCASTA democracia não tem idade: o que as eleições nos ensinaram sobre a vida

Leia a coluna da semana (26/10/2026):

A democracia não tem idade: o que as eleições nos ensinaram sobre a vida

Por Juliana Ramiro

Há imagens que dizem muito mais do que os resultados de uma eleição. Entre tantas cenas que marcaram as eleições brasileiras, uma me chamou especialmente a atenção: a participação dos idosos no exercício do voto. Mais do que uma escolha política, aquelas imagens nos convidam a refletir sobre o valor que atribuímos às pessoas em nossa sociedade.

Vivemos em um sistema capitalista no qual, muitas vezes, o sujeito é valorizado pela sua capacidade de produzir, trabalhar e consumir. Nessa lógica, crianças, adolescentes e idosos acabam ocupando lugares socialmente desvalorizados. Uns porque ainda não produzem, outros porque já deixaram de produzir. Como se a dignidade humana tivesse prazo de validade.

Mas desde quando o valor de uma vida pode ser medido pela produtividade?

A psicanálise nos lembra que o sujeito é muito mais do que a função que desempenha. Somos constituídos por histórias, desejos, experiências e vínculos. Nossa importância não começa quando ingressamos no mercado de trabalho, nem termina quando nos aposentamos.

Nessas eleições, vimos jovens demonstrando interesse pela política, participando de debates e reconhecendo seu papel na construção do futuro. E vimos idosos que, mesmo sem a obrigatoriedade do voto após os 70 anos, fizeram questão de exercer esse direito. Um gesto que reafirma seu lugar na sociedade e nos lembra que envelhecer não significa deixar de ter algo a dizer.

A democracia precisa dessa multiplicidade. Precisamos aprender com a curiosidade das crianças, com a espontaneidade e a rebeldia dos jovens e com as experiências de quem já viveu muito. Não porque a idade garanta sabedoria, mas porque cada geração carrega perspectivas que merecem ser escutadas.

Em tempos nos quais valores como justiça social, inclusão, respeito e cuidado parecem perder espaço para o individualismo e a intolerância, essas imagens nos lembram que existem princípios que não deveriam sair de moda.

Afinal, quando um presidente é eleito, governa para todos, não apenas para aqueles que o escolheram. E nós, enquanto sociedade, também precisamos compreender que fazemos parte de um todo, com nossas diferenças, histórias e modos de existir.

Uma sociedade que não escuta seus jovens compromete o futuro. Uma sociedade que silencia seus idosos despreza a própria história.

Talvez essa seja uma das maiores lições dessas eleições: o futuro se constrói com a memória do passado, a participação no presente e o reconhecimento de que nenhuma vida é descartável.

Porque a democracia não tem idade. E a dignidade também não. Somos todos, todas e todes fundamentais para a democracia.

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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/

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