Leia a coluna da semana (28/9/2026):
O voto também precisa de liberdade
Por Juliana Ramiro
A política está em todo lugar. Está na forma como organizamos a vida em sociedade, nas relações de poder, no trabalho, na família, nas instituições, naquilo que podemos escolher e também naquilo que nos é negado. Não é a eleição que inaugura a política. O período eleitoral apenas coloca em evidência uma de suas faces: a disputa pelo voto e pelo poder.
E é justamente quando essa disputa atravessa as portas do trabalho que precisamos prestar atenção. Conversar sobre candidatos, projetos e escolhas políticas faz parte da vida em sociedade. O problema começa quando a conversa deixa de ser conversa e passa a carregar ameaça, constrangimento ou medo.
É nesse território que encontramos o assédio eleitoral no ambiente de trabalho.
Ele pode aparecer de maneira explícita, quando alguém ameaça demitir trabalhadores caso determinado candidato vença, por exemplo. Mas também pode surgir de formas menos evidentes: cobranças sobre posicionamento político, promessas de benefícios, pressão para participar de atos ou aquele ambiente em que todos já entenderam qual é a posição do patrão e percebem que discordar talvez tenha consequências.
A pergunta, então, não é simplesmente se houve conversa sobre política. É outra: havia liberdade para discordar? Essa questão importa porque uma relação de trabalho não é uma relação entre pessoas em condições iguais de poder. Quem depende daquele salário para viver sabe que uma fala do chefe não tem o mesmo peso que a opinião de um amigo.
E o medo também adoece. A pessoa começa a medir palavras, esconder opiniões, observar o comportamento dos colegas e calcular o risco de ser identificada como alguém que pensa diferente. Pode não existir uma ameaça dita claramente e, ainda assim, existir um ambiente de tensão e vigilância.
A psicanálise nos ajuda a compreender que não sofremos apenas diante daquilo que concretamente acontece. Sofremos também diante daquilo que tememos que possa acontecer. A ameaça pode continuar produzindo efeitos mesmo quando ninguém mais está dizendo nada.
É assim que uma violência externa encontra espaço dentro de nós. Marx nos ensinou a olhar criticamente para a apropriação do tempo e da força de trabalho. O trabalhador vende sua força de trabalho durante determinado período em troca de salário. Mas nenhuma relação de trabalho deveria produzir a fantasia de que, porque alguém paga pelo nosso tempo, passa a ser dono de nós.
O salário não compra nossas convicções. O patrão não é proprietário do pensamento, dos desejos, da consciência ou do voto de quem trabalha para ele.
Talvez pareça óbvio. Mas algumas obviedades precisam ser repetidas quando relações de poder ultrapassam seus limites. O assédio eleitoral é também uma possível via de adoecimento no trabalho. Ele acrescenta à experiência profissional algo que nunca deveria fazer parte dela: o medo de sofrer consequências por aquilo em que se acredita — ou pela escolha de não revelar em que se acredita.
Democracia não significa pensar igual. Ao contrário. Ela exige que a diferença possa existir sem que aquele que possui mais poder transforme sua posição em ameaça.
Seu chefe pode ter uma posição política. Você pode ter outra. E você tem o direito de não dizer a ninguém qual é a sua. O voto é secreto justamente porque a escolha precisa ser livre.
Quando o medo acompanha alguém até a urna, algo dessa liberdade já foi ferido.
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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/
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