Leia a coluna da semana (6/7/2026):
Quando um filho acredita que sua vida nunca lhe pertenceu
Por Juliana Ramiro
Há uma frase que escuto com frequência no consultório: “Parece que nunca pude escolher nada na minha vida.”
Ela pode ser dita por um adolescente, por um jovem adulto ou até por alguém que já passou dos cinquenta anos. Muda a idade, mas a sensação permanece: a de que as decisões mais importantes sempre foram tomadas por outra pessoa.
Alguns cresceram ouvindo qual profissão deveriam seguir. Outros aprenderam com quem poderiam ou não se relacionar. Houve quem nunca pudesse expressar tristeza, raiva ou discordância sem ser acusado de ingratidão ou rebeldia. Assim, pouco a pouco, muitos filhos deixam de desenvolver algo essencial: a confiança de que seus próprios desejos também têm valor.
Na psicanálise, sabemos que o sujeito se constitui na relação com o outro. Somos marcados pelo olhar, pela linguagem e pelos desejos daqueles que nos acolheram. Isso não significa, porém, que devamos viver eternamente para realizar os projetos, os medos ou as frustrações de nossos pais. O desafio do amadurecimento é justamente construir uma identidade que dialogue com essa história, mas que também possa seguir seu próprio caminho.
O problema é que, em muitas famílias, a obediência é confundida com amor. Questionar vira sinônimo de desrespeito. Discordar passa a ser visto como rejeição. E escolher algo diferente do esperado parece uma traição.
O resultado costuma aparecer anos depois. Adultos inseguros diante das próprias escolhas, tomados pela culpa sempre que dizem “não”, dependentes da aprovação alheia para tomar decisões simples e profundamente angustiados quando precisam assumir a responsabilidade pela própria vida.
É importante dizer que permitir escolhas não significa abandonar os filhos ou deixá-los sem limites. Pelo contrário. Educar também é ensinar a decidir. É oferecer segurança para que a criança, aos poucos, experimente pequenas escolhas compatíveis com sua idade, aprenda com os próprios erros e desenvolva autonomia emocional.
Pais que controlam cada detalhe da vida dos filhos geralmente acreditam estar protegendo. Muitas vezes, fazem isso movidos pelo medo, pelo amor ou pelas próprias experiências de sofrimento. Mas existe uma diferença importante entre proteger e impedir o crescimento. Quem nunca pode decidir também nunca aprende a confiar em si.
Da mesma forma, quem cresceu sem espaço para construir a própria voz não precisa permanecer preso a esse lugar. Tornar-se adulto também é um processo de autorizar-se a viver uma vida que faça sentido para si, ainda que isso desagrade expectativas antigas.
Escolher envolve riscos. Toda escolha implica perdas. Mas viver apenas para corresponder ao desejo dos outros também cobra um preço alto: o de não reconhecer a própria existência.
Essa talvez seja uma das tarefas mais difíceis, e mais libertadoras, da vida adulta: compreender que honrar nossa história não exige abrir mão de quem somos.
Essa reflexão faz parte do meu livro O que eu queria que você soubesse, uma obra que convida pais, mães, filhos e todos aqueles que atravessam relações familiares a pensar sobre os vínculos, os afetos e as marcas que carregamos ao longo da vida. Se este tema dialogou com você, talvez seja um bom momento para conhecer essa leitura e continuar essa conversa.
Te convido a refletir mais sobre este e outros temas acompanhando os episódios do Psi Por Aí, disponíveis no YouTube e no Spotify. E, claro, siga também o Psi Por Aí nas redes sociais. Aceito sugestões de temas! Até a próxima semana.
Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/
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