Leia a coluna da semana (08/06/2026):
O que não ouvimos quando uma criança sofre
Por Juliana Ramiro
A cada vez que uma tragédia envolvendo uma criança ocupa as manchetes, somos tomados por uma necessidade quase imediata de encontrar respostas. Procuramos culpados, reconstruímos fatos, analisamos comportamentos e tentamos compreender o incompreensível.
Mas, em meio a tantas perguntas, existe uma que me parece fundamental: quem ouviu essa criança?
No caso de Henry Borel, como em tantos outros que mobilizam a opinião pública, o debate costuma se concentrar nos adultos. Quem sabia? Quem deveria ter percebido? Quem agiu? Quem se omitiu?
São questões legítimas. Mas talvez elas nos façam perder de vista algo essencial: havia uma criança vivendo uma experiência de sofrimento e, por alguma razão, sua dor não encontrou escuta suficiente para interromper o que estava acontecendo. E isso deveria nos inquietar profundamente.
Vivemos em uma sociedade que fala muito sobre as crianças, mas escuta pouco o que elas têm a dizer. Decidimos o que é melhor para elas, mas raramente lhes concedemos o estatuto de sujeitos capazes de expressar sua própria experiência.
A infância continua sendo um território onde a palavra da criança frequentemente vale menos que a palavra dos adultos.
A psicanalista Françoise Dolto costumava afirmar que a criança é um sujeito pleno desde o início da vida. Ela sente, percebe, interpreta e comunica, ainda que nem sempre pelos caminhos que os adultos esperam. O sofrimento infantil nem sempre aparece em frases claras. Muitas vezes surge em mudanças de comportamento, em medos repentinos, em silêncios, em recusas, em sintomas físicos, em desenhos, em brincadeiras ou em pequenos sinais que passam despercebidos.
A questão é que escutar uma criança exige disponibilidade. Exige abandonar a posição confortável de quem acredita já saber o que está acontecendo.
O psicanalista Sándor Ferenczi, ao desenvolver o conceito de desmentido, mostrou como uma das experiências mais traumáticas para uma criança acontece quando aquilo que ela vive ou sente não encontra reconhecimento no mundo adulto. Não se trata apenas da violência sofrida. Trata-se também da ausência de alguém que legitime sua experiência, que acredite em sua dor, que ofereça palavras para aquilo que ela ainda não consegue nomear.
Quando a realidade emocional de uma criança é negada, minimizada ou simplesmente ignorada, instala-se um sofrimento que vai muito além do acontecimento em si. Talvez seja por isso que histórias como essa nos afetem tanto. Porque elas nos obrigam a encarar uma pergunta incômoda: quantas crianças estão tentando falar conosco agora?
Quantas estão manifestando angústia por meio da agressividade, do isolamento, das dificuldades escolares, das mudanças de humor ou dos sintomas físicos que insistimos em tratar apenas como problemas de comportamento? Quantas vezes escutamos uma criança apenas quando ela já está em crise?
Quando uma criança sofre em silêncio, não estamos diante de uma falha individual. Estamos diante de uma falha coletiva de escuta.
Famílias, escolas, instituições, profissionais e a própria sociedade compartilham a responsabilidade de construir espaços nos quais a palavra infantil possa existir e ser levada a sério. Porque nenhuma criança deveria precisar gritar para ser ouvida.
E nenhuma criança deveria desaparecer deixando atrás de si a sensação de que seus sinais estavam ali, mas nós não conseguimos escutá-los a tempo. Talvez a maior homenagem que possamos prestar às crianças que perderam a voz seja aprender, finalmente, a ouvir as que ainda estão falando.
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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/
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