PODCASTQuando o trabalho adoece

Leia a coluna da semana (19/01/2026):

Quando o trabalho adoece

Por Juliana Ramiro

Trabalhar implica lidar com diferenças, frustrações, limites. Nenhuma relação humana é livre de conflito, e o ambiente de trabalho não é exceção. O problema começa quando aquilo que poderia ser elaborado pela palavra passa a ser manejado pela violência. Quando o mal-estar, inevitável, deixa de ser reconhecido como parte da convivência e se transforma em método de controle, humilhação e silenciamento.

O assédio moral não se apresenta, na maioria das vezes, como um grande escândalo. Ele costuma chegar de forma discreta, quase imperceptível. Um comentário atravessado aqui, uma desqualificação ali, uma cobrança que ultrapassa o razoável, uma vigilância excessiva travestida de “gestão”. Aos poucos, o ambiente se torna hostil, mas sem que seja fácil nomear o que está acontecendo. E quando algo não é nomeado, tende a se repetir.

No consultório, escuto com frequência trabalhadores que chegam exaustos, confusos, duvidando de si. “Será que sou sensível demais?”, “Talvez eu não dê conta”, “Todo mundo aguenta, só eu não”. O sofrimento psíquico produzido pelo assédio raramente se limita ao horário de expediente. Ele invade o corpo, o sono, a autoestima, as relações fora do trabalho. A violência psicológica tem esse efeito corrosivo: não deixa marcas visíveis, mas desmonta o sujeito por dentro.

Do ponto de vista psicanalítico, o assédio pode ser compreendido como uma falha na simbolização. Quando o conflito não encontra espaço para ser falado, pensado e mediado, ele tende a ser atuado. Em vez de palavra, controle. Em vez de negociação, humilhação. Em vez de limite, perseguição. Freud já apontava que o mal-estar é inerente à vida em sociedade, mas isso não significa que toda forma de lidar com ele seja aceitável. Há modos civilizados e há modos violentos de gerir o conflito.

É importante dizer: nem todo conflito é assédio. Divergências, cobranças legítimas e discordâncias fazem parte do trabalho. O assédio se caracteriza pela repetição, pela intencionalidade e pela assimetria de poder. Ele se instala quando o mal-estar deixa de ser episódico e passa a organizar a relação. Quando a violência se torna rotina.

Mas o assédio não se sustenta sozinho. Ele precisa de silêncio. Precisa de um coletivo que banaliza, que ri, que minimiza, que se cala por medo ou conveniência. Precisa, muitas vezes, de uma instituição que se omite, que prioriza resultados sem mediação ética, que transforma canais de escuta em meras formalidades. Donald Winnicott falava da importância de um ambiente suficientemente bom. No trabalho, isso significa uma organização que sustenta limites, que escuta, que intervém, que não abandona seus membros à lógica da violência.

Quando a instituição falha, a relação fica dual: alguém que exerce poder de forma abusiva e alguém que tenta sobreviver a ele. Nesse terreno, o assédio floresce. E a impunidade se torna um de seus principais combustíveis.

Falar de assédio moral não é vigiar pessoas. É qualificar relações. É construir ambientes em que o conflito possa existir sem se transformar em violência. Onde haja palavra, limite e responsabilidade compartilhada. Onde o trabalho não adoeça aqueles que deveriam encontrar nele um espaço de produção, pertencimento e dignidade.

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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/

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