Leia a coluna da semana (10/11/2025):
Quando o clima desaba dentro e fora de nós
Por Juliana Ramiro
De uns anos para cá, o clima tem nos dado sinais claros de que algo mudou. Calor fora de época, chuvas intensas, tragédias ambientais que se repetem, e uma sensação de que o mundo, tal como conhecíamos, está desmoronando um pouco a cada dia. Diante disso, muitos de nós temos sentido medo, impotência e ansiedade. E não é à toa. O planeta nos devolve, em escala global e na realidade, o mesmo movimento psíquico que vivemos quando perdemos o chão: o colapso da ilusão de segurança.
A sensação de estabilidade, de que o amanhã será parecido com o hoje, é essencial para a saúde mental. É ela que estrutura o psiquismo, que dá contorno ao caos interno e permite ao sujeito sonhar, criar, planejar. Mas a verdade é que nunca estamos realmente seguros. A segurança é uma construção simbólica, uma fantasia necessária para que possamos viver. Sem ela, o medo se instala e a ansiedade se eleva.
A psicanálise nos ensina que a ansiedade é estruturante: é ela que nos move diante do perigo, como o animal que corre ao perceber a ameaça. Mas quando esse afeto ultrapassa o limite do suportável, ele paralisa. Em vez de fuga, vem o congelamento. E o sujeito, tomado pelo excesso, adoece — física e emocionalmente.
O clima, nesse sentido, tem se tornado mais um fator de adoecimento psíquico e coletivo. O colapso climático que vivemos soma-se à insegurança econômica, ao excesso de trabalho, à falta de tempo e à sensação de impotência diante de um mundo em crise. O resultado é um mal-estar difuso, que vai do cansaço extremo à desesperança.
A negação, mecanismo de defesa tão humano, tem sido nossa tentativa de sobreviver ao insuportável. Fingir que “não é tão grave assim”, minimizar dados científicos, ou simplesmente mudar de assunto. Tudo isso serve, em alguma medida, para não enlouquecer. No entanto, chegamos a um ponto em que não há mais como negar. A realidade climática nos convoca a uma nova forma de estar no mundo, mais consciente e mais coletiva.
Não adianta mais, feito criança, pôr as mãos nos olhos achando que assim estamos protegidos. É hora do oposto: tirar a venda e olhar o real de frente. Reconhecer nossa parte na crise, rever práticas de consumo, cobrar políticas públicas, cuidar das relações — com o outro e com o ambiente. O planeta pede escuta. E talvez essa escuta comece dentro de nós, na coragem de encarar o medo sem deixá-lo nos paralisar.
O caos está aí. Mas ainda há tempo de transformá-lo em movimento, em gesto, em desejo de reparação.
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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/
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