PODCASTParem de nos matar

Leia a coluna da semana (02/02/2026):

Parem de nos matar

Por Juliana Ramiro

Acordo pela manhã, abro os sites de notícias e, mais uma vez, uma mulher foi assassinada em nosso país. Não por acaso. Não por engano. Mas por ser mulher. No Rio Grande do Sul, estado em que vivo com minha família, o mês de janeiro de 2026 escancarou essa realidade de forma brutal: foram 11 casos de feminicídio em apenas 29 dias. Um número que não pode ser tratado como estatística fria, porque ele representa vidas interrompidas, famílias devastadas e uma sociedade que segue falhando com suas mulheres.

Diante desse cenário, a deputada estadual Laura Sito (PT) protocolou o pedido para que o feminicídio no estado seja reconhecido como estado de calamidade pública. A proposta não é mero gesto político. Reconhecer a calamidade significa admitir que estamos diante de uma emergência social e estrutural, o que permitiria a liberação de recursos extraordinários, o fortalecimento da rede de proteção, ampliação de políticas de prevenção, acolhimento às mulheres em risco e ações educativas mais robustas. Dar esse nome à tragédia é também tirá-la do lugar do privado, do “problema do casal”, onde tantas vezes a violência contra mulheres foi empurrada.

Mas os números, embora indispensáveis, não dão conta de tudo. Eles nos obrigam a fazer uma pergunta mais incômoda: o que está acontecendo com as relações entre homens e mulheres? Por que, justamente num momento em que as mulheres conquistam mais autonomia, mais voz e mais espaço, a violência letal se intensifica?

A filosofia e a psicanálise ajudam a pensar. O filósofo francês Michel Foucault dizia que o poder está enfraquecido quando precisa recorrer à força. Talvez o feminicídio seja uma das expressões mais cruéis de um patriarcado em crise. As mulheres estão mais informadas, menos dispostas a aceitar violência, ocupando espaços de poder, de pensamento e de decisão. Nas universidades, por exemplo, já somos maioria. Soma-se a isso dados recentes que mostram que mais de 50% das mulheres não desejam ser mães — muitas vezes para não permanecer em relações de dependência, para não manter vínculos obrigatórios com parceiros violentos ou ausentes. Cresce também o número de mulheres que optam por não se relacionar afetivamente com homens, como forma de sair de um lugar historicamente desigual nas relações entre o feminino e o masculino.

Algo se desorganiza aí. A impressão — clínica, social e política — é que, diante da perda de poder, centralidade e controle, alguns homens respondem com violência extrema. Como se, num ato final, afirmassem: se não é minha, não será de ninguém. Não se trata de justificar, mas de tentar compreender os mecanismos psíquicos e sociais que alimentam esse ódio.

Nesse ponto, a psicanalista pós-freudiana Melanie Klein oferece uma chave importante. Ao falar da inveja do seio, ela não se refere apenas a um objeto concreto, mas a um símbolo de potência: a capacidade de nutrir, de gerar, de sustentar a vida. A inveja surge quando o sujeito não suporta aquilo que o outro possui e ele não. Quando essa inveja não é simbolizada, ela pode se transformar em ódio e desejo de destruição. Podemos pensar que parte da violência masculina contra mulheres carrega algo dessa inveja arcaica: da potência feminina, da capacidade de gerar vida, de existir de forma autônoma. A inveja, nos lembra Klein, é irmã do ódio.

Mas não basta olhar apenas para a microfísica do poder ou para a constituição do psiquismo. É impossível fugir de uma dimensão central: a educação. O que ainda ensinamos às meninas sobre amor, sobre tolerar, sobre suportar? O quanto seguimos alimentando fantasias de príncipe encantado, enquanto naturalizamos o controle, o ciúme e a violência? E o que ensinamos aos meninos sobre frustração, perda, limite e igualdade?

Quando dizemos “homem é assim”, mentimos. O homem não nasce agressor. Ele se torna. Da mesma forma, a mulher não nasce vítima, ela é colocada nesse lugar quando a sociedade naturaliza a violência e silencia diante dela. Esse tornar-se passa pela educação, pela cultura e pelas mensagens explícitas e implícitas que seguimos repetindo.

Por isso, falar em feminicídio é falar de política pública, de responsabilização do Estado, mas também de transformação profunda das relações sociais. Enquanto não enfrentarmos essas bases, seguiremos contando corpos.

É preciso dizer, sem rodeios: parem de nos matar. Mas também é preciso ir além do grito. Olhar para dentro — como sociedade, como homens, como educadores, como Estado. O feminicídio não é um desvio isolado. Ele é sintoma de uma estrutura que precisa, urgentemente, ser transformada.

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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/

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