PODCASTQuando a gente se perde olhando para a tela e o filho aprende a se calar

Leia a coluna da semana (23/02/2026):

Quando a gente se perde olhando para a tela e o filho aprende a se calar

Por Juliana Ramiro

Há uma cena cada vez mais comum nas casas de hoje: pais e mães sentados ao lado dos filhos — no sofá, à mesa, no carro — mas com os olhos mergulhados no celular. A criança fala. O adulto responde: “Só um minutinho”. O minuto vira cinco, dez. O assunto morre. O filho aprende que talvez seja melhor não insistir.

No capítulo 26 do meu livro O que eu queria que você soubesse, escrevo uma carta fictícia de um filho que diz aos pais: “Eu já cresci. Mas, às vezes, ainda preciso que me vejam.” Essa frase, simples e direta, carrega uma verdade que atravessa a infância e a adolescência: crescer não é deixar de precisar. É precisar de outro jeito.

Presença não é proximidade física

O psicanalista Donald Winnicott nos ensinou que a presença psíquica do cuidador sustenta a sensação de continuidade da criança no mundo. Ele dizia que o primeiro espelho da criança é o rosto da mãe — ou de quem cuida. É nesse rosto que ela se reconhece como existente, importante, viva.

Mas o que acontece quando esse espelho está voltado para uma tela?

Não se trata de demonizar a tecnologia, nem de idealizar uma parentalidade perfeita. Trata-se de reconhecer um fenômeno do nosso tempo: estamos fisicamente presentes, mas emocionalmente fragmentados. O psicanalista Daniel Kupermann chama isso de “presença distraída”. Pais que tentam dar conta de tudo — trabalho, mensagens, notificações, cobranças — e acabam não estando inteiros em lugar nenhum.

Para uma criança ou adolescente, essa ausência sutil comunica algo doloroso: “Eu preciso competir com o mundo para ser ouvida.”

O silêncio que não é desinteresse

Muitos pais se queixam: “Meu filho não conversa mais comigo.” Mas raramente se perguntam quando a escuta começou a falhar.

O adolescente que se tranca no quarto com fones de ouvido talvez não esteja rejeitando os pais. Talvez esteja protegendo-se de uma experiência repetida de não ser escutado. Quando a fala encontra sempre um “depois”, ela aprende a se recolher.

Outro psicanalista, Wilfred Bion, desenvolveu o conceito de função continente: o cuidador é aquele que recebe os afetos brutos da criança — medo, raiva, frustração — e os ajuda a ganhar forma e sentido. Quando o adulto está emocionalmente exausto ou capturado por mil estímulos, essa função se enfraquece. A criança fica sozinha com o que sente.

E sozinha, ela inventa soluções: silencia, se isola, substitui o diálogo por telas — como nós.

Crescer é precisar de outro jeito

Há um mito perigoso de que, depois de certa idade, os filhos “não precisam mais”. Não precisam de colo, de ajuda para vestir o casaco, de supervisão constante. Mas continuam precisando de algo mais sutil e, talvez, mais difícil: atenção simbólica.

Um olhar que diz “eu te vejo”.
Uma pausa que comunica “isso que você está dizendo importa”.
Um “agora não posso, mas quero te ouvir depois” — e o cumprimento real dessa promessa.

A rotina oferece oportunidades preciosas de vínculo: o caminho até a escola, o preparo do jantar, a conversa antes de dormir. Não é sobre grandes discursos, é sobre pequenos gestos repetidos. É ali que o filho testa se ainda há espaço para ele no mundo interno dos pais.

Não é culpa. É responsabilidade.

Vivemos tempos exaustivos. Pais e mães trabalham muito, carregam culpas demais e recebem apoio de menos. A desconexão, muitas vezes, não é desamor — é defesa. É o corpo tentando sobreviver à sobrecarga.

Mas reconhecer isso não nos exime de responsabilidade. Pelo contrário: nos devolve a possibilidade de escolha:

Desligar o celular por alguns minutos.
Olhar nos olhos.
Ouvir até o fim.
Perguntar de novo.
Sustentar o silêncio sem preenchê-lo imediatamente.
Presença não é perfeição. É disponibilidade possível.

Quando um filho diz, explicitamente ou não, “eu sinto falta de vocês, mesmo estando perto”, ele não está pedindo atenção o tempo todo. Está pedindo para existir no campo do olhar de quem ama.

E existir, para uma criança ou adolescente, ainda depende — profundamente — de ser visto.

Aproveito para compartilhar que estarei lançando e autografando meu livro O que eu queria que você soubesse na Feira do Livro de Tramandaí, no dia 28 de fevereiro, sábado, a partir das 19h. Será uma alegria encontrar vocês.

Te convido a refletir mais sobre este e outros temas acompanhando os episódios do Psi Por Aí, disponíveis no YouTube e no Spotify. E claro, siga também o Psi Por Aí nas redes sociais. Aceito sugestões de temas! Até a próxima semana.

Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/

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