PODCASTNem todo choro é manha: o que a infância tenta nos dizer

Leia a coluna da semana (22/12/2025):

Nem todo choro é manha: o que a infância tenta nos dizer

Por Juliana Ramiro

“Para de chorar, isso é manha.”
Poucas frases atravessam tão cedo a vida emocional de uma criança quanto essa. E poucas também produzem tantos efeitos silenciosos e duradouros.

O choro infantil, tão rapidamente rotulado como excesso, manipulação ou fragilidade, é uma das primeiras linguagens que temos para existir no mundo. Antes da palavra, antes do pensamento organizado, antes mesmo de sabermos quem somos, choramos. Choramos porque algo dói, porque algo assusta, porque algo falta, porque algo transborda. Choramos porque o corpo sente antes de qualquer explicação possível.

Na clínica, escuto adultos que aprenderam cedo demais que sentir era exagero. Homens e mulheres que carregam uma dificuldade profunda de reconhecer seus próprios afetos porque, lá atrás, alguém disse que não era motivo, que era drama, que era manha. O que não pôde ser escutado virou silêncio, sintoma ou culpa.

Do ponto de vista da psicanálise, o choro não é um erro a ser corrigido, mas um pedido de tradução. O psicanalista Donald Winnicott nos lembra que a criança precisa de um ambiente que a ajude a sustentar aquilo que ela ainda não consegue nomear. Outro psicanalista, Wilfred Bion, fala dessa função de acolher o afeto bruto e devolvê-lo em forma de algo pensável. Quando isso falha, o afeto não desaparece, apenas perde endereço.

Chamar de manha aquilo que é expressão de angústia é uma forma de interromper o diálogo. É ensinar, ainda que sem intenção, que algumas emoções não merecem espaço. Que o vínculo é condicionado ao bom comportamento. Que o amor exige controle.

Isso não significa que tudo deva ser permitido ou que limites não sejam necessários. Pelo contrário. Limites fazem parte do cuidado. Mas há uma diferença fundamental entre colocar limites e desqualificar sentimentos. Uma criança pode ouvir “não” sem ouvir “você sente demais”. Pode ser contida sem ser diminuída.

Talvez uma das tarefas mais difíceis da vida adulta seja justamente essa: sustentar o choro do outro sem apressar o silêncio. Permanecer ao lado quando não há solução imediata. Reconhecer que a infância não é um problema a ser resolvido, mas um território a ser acompanhado.

Foi desse lugar de escuta da infância que nasceu meu livro O que eu queria que você soubesse. Um livro que dá voz à infância por meio de cartas escritas na primeira pessoa da criança, seguidas de comentários teóricos acessíveis e reflexões para quem cuida. Cada capítulo parte de situações cotidianas, o choro, a manha, o silêncio, a recusa, o medo, e tenta escutar o que existe por trás desses gestos tão comuns quanto mal compreendidos.

Não escrevi para especialistas, mas para pais, mães, educadores, avós e todos que convivem com crianças e desejam compreendê-las melhor. O livro é um convite à escuta mais atenta, mais humana e menos apressada.

O que eu queria que você soubesse já está disponível para compra, em versão física e e-book, no site da Editora Lumina e na Amazon. É um livro para ler devagar, com o coração aberto e com a coragem de revisitar a criança que fomos, aquela que também chorou e precisou ser ouvida.

Seguimos aprendendo. A infância não vem com manual, mas vem com linguagem. Cabe a nós decidir se vamos escutar.

Te convido a refletir mais sobre este e outros temas acompanhando os episódios do Psi Por Aí, disponíveis no YouTube e no Spotify. E, claro, siga também o Psi Por Aí nas redes sociais. Aceito sugestões de temas. Até a próxima semana.

Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/

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