Leia a coluna da semana (26/01/2026):
O medo que mora no escuro — e o que ele quer nos dizer
Por Juliana Ramiro
Há algo profundamente humano no medo. Antes mesmo de sabermos nomear o mundo, o medo já nos habita. Ele aparece na infância, reaparece na adolescência, nos acompanha na vida adulta e, em diferentes formas, insiste em nos lembrar que sentir é inevitável. Nesta semana, na coluna sobre saúde mental, retomo reflexões do capítulo 7 do meu livro O que eu queria que você soubesse (disponível na Amazon), para falar sobre o medo das crianças — e sobre o quanto ele também diz respeito a todos nós.
Quando uma criança diz que há um monstro debaixo da cama, o impulso adulto costuma ser o de “resolver”: acender a luz, olhar embaixo, garantir que não há nada ali. Mas o medo, muitas vezes, não mora no chão do quarto. Ele mora dentro. No corpo pequeno que sente o espaço crescer, o escuro ganhar olhos, o coração bater mais forte. O medo não é mentira, nem drama. É experiência psíquica real.
Dizer “isso não existe” pode até silenciar a fala, mas não dissolve o sentimento. Ao contrário: quando o adulto invalida o medo, invalida também quem sente. A criança aprende, cedo demais, que há emoções que não merecem escuta. E isso cobra um preço ao longo da vida.
Do ponto de vista psicanalítico, o medo tem uma função fundamental. O psicanalista Donald Winnicott nos ajuda a compreender isso ao falar do espaço transicional — essa zona intermediária entre a realidade externa e o mundo interno, onde a criança brinca, imagina e elabora o que ainda não consegue pensar. O monstro, o fantasma, o barulho estranho são tentativas de dar forma ao indizível. São mapas emocionais do desconhecido.
Negar o monstro de forma abrupta é romper essa ponte simbólica. A criança não precisa que o medo desapareça à força, mas que alguém caminhe com ela enquanto ele existe.
Outro psicanalista, Juan-David Nasio, afirma que o medo é o afeto que sinaliza o nascimento do pensamento. É diante do medo que começamos a perguntar, imaginar, criar explicações. Quando o medo é acolhido, ele vira pergunta. Quando é negado, vira angústia muda. Acolher não é reforçar o terror, mas permitir que ele se transforme.
Importante! O monstro só se torna insuportável quando a criança fica sozinha com ele. Quando o adulto reconhece o medo — ainda que simbolicamente — ele deixa de ser ameaça absoluta e passa a ser metáfora: um espelho dos medos internos que todos nós, em alguma medida, precisamos atravessar.
E aqui está um ponto essencial: o papel de quem acompanha. Pais, mães, cuidadores, educadores. Não é sobre ter respostas prontas, nem sobre convencer a criança de que “não é nada”. É sobre escutar, acolher, sustentar. Dizer, com palavras e presença: “o escuro existe, mas eu estou aqui com você”. Isso ensina algo precioso: que sentir não é perigoso e que ninguém precisa ficar sozinho com o que sente.
O medo, afinal, também nos protege. Ele nos alerta, nos faz pensar, nos convida à prudência. Em todas as idades, o problema não é sentir medo, mas não ter com quem compartilhá-lo. Crianças que aprendem que seus medos são escutados tornam-se adultos mais capazes de reconhecer limites, pedir ajuda e cuidar de si.
Talvez o maior aprendizado seja esse: não se trata de eliminar o medo, mas de humanizá-lo. Ajudar a criança (e a nós mesmos) a compreender que o medo passa, que ele pode ser vivido em companhia, e que até no quarto mais escuro pode haver um olhar que reconhece.
Te convido a refletir mais sobre este e outros temas acompanhando os episódios do Psi Por Aí, disponíveis no YouTube e no Spotify. E claro, siga também o Psi Por Aí nas redes sociais. Aceito sugestões de temas! Até a próxima semana.
Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/
Veja mais artigos do nosso blog:
Crise de Pânico – https://amepsionline.com.br/crise-panico-onde-tudo-comecou/
Manifestações da Natureza e nosso Psiquismo – https://amepsionline.com.br/manifestacoes-natureza-mexem-psiquismo/
Acompanhe nas redes sociais:
https://www.instagram.com/podcastpsiporai
https://www.facebook.com/profile.php?id=61558406494094
Assista o Psi Por Aí no Youtube:
https://www.youtube.com/@PsiPorA%C3%AD24
Ouça o Psi Por Aí no Spotify:
https://open.spotify.com/episode/42HS5YLOqi5mCx1Rd4UU7v?si=0FlCxXYXSPeCzH9CeJBG7A
Este conteúdo tem o apoio de:
Litoral na Rede – https://litoralnarede.com.br/
Sindifars – https://sindifars.com.br/
Espaço Âme – https://www.instagram.com/espacoame.rs/

