Leia a coluna da semana (28/7/2025):
As manifestações da natureza mexem com nosso psiquismo?
Por Juliana Ramiro
Enquanto escrevo este artigo, do lado de fora chove forte, os ventos balançam árvores e fios, e os alertas meteorológicos recomendam que fiquemos em casa. Para quem vive no litoral do Rio Grande do Sul, esse cenário já não é raro — mas, ainda assim, é sempre inquietante. Nos últimos tempos, sob o impacto direto de um modelo de vida capitalista predatório — que explora o ser e a natureza —, os eventos climáticos extremos se tornaram parte da nossa realidade. E, sim, eles afetam profundamente nosso psiquismo.
Desde maio do ano passado, quando boa parte do nosso Estado ficou submerso, a chuva passou a carregar outros significados. Aquilo que antes remetia à tranquilidade de um dia preguiçoso ou ao frescor de um final de tarde, hoje pode ser sinônimo de medo, insegurança, angústia e desamparo. O que isso nos mostra? Que nosso psiquismo simboliza e ressignifica as experiências vividas, principalmente as marcadas pelo trauma.
Quem sofreu um acidente, por exemplo, talvez demore para conseguir entrar novamente em um carro. O corpo lembra. Quem perdeu sua casa para as águas, ou viu suas memórias invadidas e arrastadas pela enxurrada, talvez precise de muito tempo para ouvir o som da chuva sem sentir o coração acelerar. Nosso corpo guarda os sentidos — sons, cheiros, imagens — e responde a eles mesmo quando achamos que esquecemos.
A repetição e a frequência cada vez maior desses eventos nos colocam em estado de alerta constante. Um alerta que gera ansiedade, estresse, medo. E o que o ser humano mais precisa para viver é justamente o contrário: a falsa sensação de controle, de que a vida está sob nosso comando. Quando perdemos até isso — a ideia de segurança na nossa própria casa, por exemplo — o psiquismo entra em colapso. Ficamos esgotados.
Muitos de nós hoje vivem como verdadeiros veteranos de guerra. Assustados, hipervigilantes, sobrecarregados. E o mais doloroso é que, se não transformarmos essa dor coletiva em reflexão e mudança, seguiremos colecionando traumas e desastres. Como já alertava Gabor Maté em O Mito do Normal, vivemos numa era de avanços impressionantes na ciência, na farmacologia, na inteligência artificial — e também a era com os maiores índices de depressão, ansiedade e doenças físicas de fundo psíquico. O que isso nos diz sobre a forma como estamos vivendo?
É urgente repensar o modelo de sociedade que escolhemos alimentar. Não só para garantir o futuro do planeta, mas para cuidar da saúde mental e emocional das próximas gerações.
Espero que o sol volte, não apenas no céu, mas na vida de cada um de nós. Que possamos construir espaços internos e coletivos mais seguros, saudáveis e justos.
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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/
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