PODCASTDezembro: o mês em que o psiquismo pede ajuda

Leia a coluna da semana (01/12/2025):

Dezembro: o mês em que o psiquismo pede ajuda

Por Juliana Ramiro

Todos os anos, quando dezembro se aproxima, surge a mesma pergunta no consultório: “Por que você trabalha entre o Natal e o Ano Novo?” A resposta, apesar de simples, diz muito sobre essa época do ano. Comecei meus atendimentos no dia 25 de novembro, alguns (muitos) anos atrás, e fazer uma pausa logo no início dos atendimentos, com os primeiros pacientes, parecia inviável. Mas o que realmente marcou aquele período foi perceber o quanto o fim do ano mexe profundamente com as pessoas. Naquele ano inaugural, ouvi repetidamente: “Que bom que tu estás atendendo, estou precisando muito.” E ali ficou evidente algo que ainda vejo hoje: dezembro é um mês em que o psiquismo fica particularmente exposto.

Encerrar um ano nunca é apenas virar a folha do calendário. É um momento simbólico, quase ritualístico, de balanço interno: o que fiz, o que deixei de fazer, do que me arrependo, o que não dei conta. Essas perguntas vêm mesmo para quem tenta fugir delas. E na lógica do capitalismo de alta performance que somos praticamente obrigados a viver, onde sempre parece faltar algo, esse balanço costuma vir acompanhado de sofrimento. A sensação de “não ter sido suficiente” aparece com força, desconsiderando o fato de que a régua é sempre mais alta do que o possível.

Ao mesmo tempo, dezembro é o mês dos encontros: família, amigos, colegas de trabalho. Cada reencontro convoca afetos que pareciam adormecidos — culpas antigas, tristezas guardadas, conflitos recorrentes, saudades que doem. Para quem não tem com quem celebrar, o peso é outro: as datas podem produzir um silêncio que machuca. Também existe o excesso de exposição para quem vive dificuldades sociais. De repente há festa aqui, confraternização ali, ceia acolá, e todo mundo parece ter que estar presente, sorrindo, performando alegria, mesmo quando a alma pede recolhimento. Sem falar no impacto financeiro: dezembro é um mês caro. Presentes, roupas, viagens, espumantes. Mesmo para quem não pode, ou não quer gastar, há uma pressão implícita para parecer que está tudo bem, parecer que está “dentro”.

Diante disso tudo, fica a pergunta: afinal, para quem o fim do ano é leve? Para o comércio e para o capitalismo, certamente. Para as pessoas, talvez, se conseguirmos desacelerar, baixar a guarda, abandonar a cobrança excessiva e a necessidade de performar felicidade. Se conseguirmos escolher os encontros que realmente desejamos estar e recusar aqueles movidos por obrigação ou culpa. O psicanalista Donald Winnicott, que já citei bastante aqui, nos lembra que a felicidade está nos espaços onde podemos ser nós mesmos, onde o verdadeiro self encontra respiro, sem máscaras e sem exigências impossíveis.
Escrevo este texto para ser publicado neste início de dezembro, na esperança de atenuar um pouco o peso que esse mês impõe. Talvez, ao pensar antes, possamos viver o fim do ano com mais gentileza — interna e externa.

Aos meus pacientes, estaremos juntos enfrentando dezembro e tudo o que ele significa. Não é pouco. Mas é possível atravessar com menos dureza quando se é acompanhado.

Te convido a refletir mais sobre este e outros temas acompanhando os episódios do Psi Por Aí, disponíveis no YouTube e no Spotify. E claro, siga também o Psi Por Aí nas redes sociais. Aceito sugestões de temas! Até a próxima semana.

Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/

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