Leia a coluna da semana (27/10/2025):
Inclusão ou Rotulação? O que fazemos com as crianças com laudo nas escolas
Por Juliana Ramiro
TEA, TOD, TDAH… essas siglas já fazem parte do vocabulário cotidiano das escolas. Elas aparecem nas reuniões pedagógicas, nos bilhetes enviados às famílias e nas conversas de corredor entre professores. A impressão que tenho é de que, quando se trata de inclusão, estamos sempre chegando atrasados.
A maioria dos diagnósticos na infância parte de uma suspeita escolar: “seu filho não para”, “não aprende”, “não acompanha a turma”, “precisa investigar”. A família, aflita, busca um neuropediatra, faz testagens e, em pouco tempo, chega a um laudo. Esse documento, então, é entregue à escola — e o que acontece depois? Na maioria das vezes, muito pouco ou quase nada.
A criança com laudo recebe um rótulo. E só.
Passa a sentar na frente, em alguns casos ganha algumas adaptações nas atividades e segue seu caminho escolar carregando um papel que diz mais sobre o que ela não consegue do que sobre o que ela pode. O laudo, que deveria abrir caminhos, muitas vezes fecha portas invisíveis.
Mas o que é, afinal, inclusão?
Incluir não é apenas garantir matrícula ou cumprir a legislação. É olhar para o sujeito — e não para o diagnóstico —, reconhecendo suas singularidades e possibilidades. É perceber que, mesmo sob a mesma sigla, cada criança é um mundo. Que o TEA de um não é o TEA de outro. Que o que está em jogo não é o laudo em si, mas o modo como o adulto o lê.
É claro que não é fácil. A realidade das escolas é árdua: turmas com mais de vinte crianças, pelo menos cinco com diagnósticos confirmados e outras tantas que não aprendem no ritmo esperado. É legítimo o cansaço de professores que se desdobram entre o ideal da inclusão e a falta de recursos para sustentá-la.
Mas talvez devamos nos perguntar: será que a forma tradicional de ensinar ainda dá conta dos novos sujeitos? Essa é uma reflexão que merece um texto à parte — e fica como tema para um próximo artigo.
Para além das técnicas e das metodologias, toda criança — com ou sem laudo — precisa ser olhada. Precisa de um adulto que a conquiste, que enxergue nela o possível, e não apenas o problema. Que possa, junto com ela, construir pontes.
Do lugar do consultório, vejo diariamente o quanto o olhar do outro molda o que uma criança se torna. Quando o adulto enxerga apenas o déficit, o que retorna é o fracasso. Quando o adulto se autoriza a ver potência, algo novo se inaugura.
Para além das técnicas e estratégias em sala de aula, o que realmente precisa acontecer é o vínculo. É o professor se interessar de verdade pelo aluno, chegar perto, escutar, conhecer suas formas de dizer e de aprender. Aprendemos pelo amor — e não há método que substitua isso. Quando o vínculo se estabelece, é ali que mora o aprendizado, é dali que nasce a potência. Aquele aluno que antes era visto como “problema” passa a ser o aluno que participa, que cria, que brilha os olhos. O que transforma não é apenas o recurso pedagógico, mas a presença de um adulto que acredita, que se envolve e que faz da relação o primeiro instrumento de ensino.
Se nós, que somos os espelhos, só vemos o problema — é o problema que vai se revelar.
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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/
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