Leia a coluna da semana (21/7/2025):
O que um autista deve aprender na escola?
Por Juliana Ramiro
A pergunta que dá título a este artigo parece simples, mas carrega em si uma armadilha: a ideia de que existe uma lista universal de aprendizados que toda pessoa no espectro autista deve alcançar na escola. E é justamente esse olhar que precisamos problematizar.
Na perspectiva da psicanálise, o autismo não é um transtorno a ser corrigido, mas uma estrutura subjetiva — uma forma de estar no mundo, de experimentar os vínculos e de construir sentido. Não há um “caminho ideal” a ser seguido, mas sim um sujeito a ser escutado, acolhido e respeitado em sua singularidade.
A escola, por sua vez, não é apenas um lugar de transmissão de conteúdo. Ela é, antes de tudo, um espaço de socialização, de experiências compartilhadas, de encontros e descobertas. O currículo, os conteúdos programáticos, os objetivos acadêmicos são importantes, claro — mas não são o fim em si mesmos. Eles são meios. O fim é o sujeito.
Quando pensamos em uma criança autista na escola, o mais importante não é que ela aprenda a tabuada ou escreva uma redação nota dez. É que ela possa estar ali, com os outros, estabelecer vínculos possíveis, encontrar seu jeito de participar da vida coletiva.
Um exemplo simples, mas potente: uma criança que, no início do ano letivo, não conseguia entrar na sala de aula ou se comunicar com os colegas. Se, ao final do ano, ela consegue permanecer por alguns minutos naquele espaço, reconhece os colegas, interage à sua maneira — esse é um avanço imenso. E só foi possível porque ela foi exposta a um ambiente que acolheu sua diferença sem violentá-la com expectativas normativas.
Mas para que isso aconteça, a escola precisa de algo fundamental: educadores preparados. Preparados não apenas tecnicamente, com formação sobre o espectro do autismo, mas também emocionalmente. É preciso sensibilidade para reconhecer os sinais, saber o que é comum e o que é singular em cada aluno. Ter um olhar humanizado, atento, que compreenda que ensinar nem sempre é levar o outro até onde eu quero, mas ajudá-lo a ir até onde ele pode e deseja chegar.
Rubem Alves dizia que há escolas que são gaiolas, outras que são asas. As gaiolas querem padronizar, prender, controlar. As asas, por sua vez, ensinam o voo possível, respeitando o tempo, a forma e a direção de cada um.
A escola é — e deve ser — para todos. Inclusive para os que ensinam a ver o mundo com outros olhos.
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Texto publicado originalmente no Litoral na Rede: https://litoralnarede.com.br/tag/saudemental/
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